Transcrição: Luciana da Costa Bulhões ¹
Pesquisa: Pedro
Costa Pereira ²
Texto e Pesquisa: Ronaldo
Antônio Torres Cruz ³
Professora Doutora: Christiane
Batinga Agra 4
RESUMO
Introdução:
Carregado
de uma essência cultural muito forte, os folhetos eram o principal meio de
comunicação e alfabetização nas pequenas cidades do interior nordestino, onde
eram levados por poetas cantadores, geralmente em lombo de cavalo. Devido à
forte necessidade da leitura, os folhetos se tornaram em instrumento de
multiletramento, pois a alfabetização para muitos nordestinos começou a partir
da leitura desses folhetos informativos ou romanceados. Somente a partir da
década de 1940 é que esse tipo literário ficou conhecido como literatura de
cordel. Objetivo: erigir reflexões
acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos
espaços de feiras, festas e bienais literárias. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa
e caráter exploratório, cujo aporte teórico traz as contribuições de Bagno
(2014), Cândido (2014) e Possenti (2002) e a coleta de dados se deu por meio de
entrevistas semiestruturadas. Resultados:
O cordel sofreu modificações ao longo do tempo, sendo encontrado, muitas vezes,
sem a métrica que sempre lhe foi tradicional. Contudo, também foi o passar dos
anos que lhe trouxe a possibilidade de expandir seus horizontes, ao participar
de bienais e diversas festas literárias, eventos em que se integra à literatura
erudita e encurta a distância entre o fruto da literatura popular e o produto
das elites literárias. Conclusão: O preconceito
sobre o cordel ainda permeia o meio literário, contudo, são notórias as
influências desta literatura nas produções literárias e composições musicais do
meio erudito, ainda que em um ou outro momento se tente invalidar o seu valor
enquanto manifestação artística cultural.
Palavras-chave:
LITERATURA POPULAR. LITERATURA ERUDITA. INFLUÊNCIAS DO CORDEL.
THE POPULAR
LITERATURE AND A RELATIONSHIP OF POWER
WITH A WRITING LITERATURE
Luciana
da Costa Bulhões ¹
Pedro
Costa Pereira ²
Ronaldo
Antônio Torres Cruz ³
Christiane
Batinga Agra 4
ABSTRACT
Introduction: Loaded with a very strong cultural essence, the leaflets were the main means of communication and literacy in the small cities of the northeastern interior, where they were taken by singing poets, usually on horseback. Due to the strong need for reading, the brochures became a multilevel instrument, since literacy for many Northeastern people began from reading these informative or romanticized pamphlets. It was not until the 1940s that this literary type became known as string literature. Objective: to construct reflections about the relation of the cordel literature with the traditional literature in the spaces of fairs, parties and literary biennials. Methodology: This is a bibliographical research, with a qualitative and exploratory approach, whose theoretical contribution brings the contributions of Bagno (2014), Cândido (2014) and Possenti (2002) and data collection was done through semi-structured interviews . Results: The string has undergone modifications over time, being found, many times, without the metric that has always been traditional to it. However, it was also the passing of the years that brought him the possibility of expanding his horizons by participating in biennials and various literary festivals, events in which he integrates with scholarly literature and shortens the distance between the fruit of popular literature and the product of elites literary works. Conclusion: The prejudice about the cord still permeates the literary milieu, however, the influences of this literature in the literary productions and musical compositions of the middle scholar are notorious, although at one time or another it is tried to invalidate its value as a cultural artistic manifestation.
Keywords: POPULAR LITERATURE. ERUDITE LITERATURE. INFLUENCES OF CORDEL.
1 INTRODUÇÃO
Este artigo tem como objetivo erigir reflexões
acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos
espaços de feiras, festas e bienais literárias.
O cordel é uma narrativa poética geralmente
estruturada em estrofes de seis versos (sextilha) e em sete sílabas poéticas,
com rimas obrigatórias no segundo, quarto e sexto versos, impresso em formato
de folheto (CORDA, 2018). Sua origem data dos cantadores medievais e chegou na
Península Ibérica por volta do século XVI e em Portugal recebeu o nome de
“folhas soltas” ou “volantes”. Com a invenção da prensa os folhetos impressos
passaram a ser vendidos pendurados em cordel, vindo daí o seu nome atual
(CORDEL, 2016). Aportou no Brasil nas malas dos colonizadores, se instalando
primeiramente em Salvador, à época, capital da colônia, expandindo-se, depois,
para outros estados do Nordeste, levados pelas vozes dos poetas cantadores e
ceguinhos declamadores, e essa poesia oral não tinha ainda uma identidade
própria, não podendo ser chamada de literatura, pois a oralidade é uma forma de
comunicação e não uma natureza literária. A literatura está sujeita à palavra
impressa (MOISÉS, 2012). Somente no final do século XIX a poesia popular teve
seus primeiros exemplares impressos. Coube a Leandro Gomes de Barros, um poeta
popular, imprimir os primeiros folhetos – como ficou conhecido o cordel – e
comercializá-los, fazendo muito sucesso junto à classe popular (TELMO, 2011).
Carregado de uma essência cultural muito forte,
os folhetos eram o principal meio de comunicação e alfabetização nas pequenas
cidades do interior nordestino, onde eram levados por poetas cantadores,
geralmente em lombo de cavalo. Devido à forte necessidade da leitura, os
folhetos se tornaram em instrumento de multiletramento, pois a alfabetização
para muitos nordestinos começou a partir da leitura desses folhetos
informativos ou romanceados. Somente a partir da década de 1940 é que esse tipo
literário ficou conhecido como literatura de cordel (CORDEL, 2016; TELMO, 2011).
O cordel tem inspirado escritores eruditos e a
compositores da música popular brasileira ao longo do tempo e a “espontaneidade
e graça dessas criações fazem com que o leitor urbano, mais sofisticado, lhes
dedique interesse, despertando ainda a pesquisa e análise de eruditos
universitários” (Drummond, apud DIAS,
2013). João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, escritores
consagrados na nossa literatura, foram influenciados pelo cordel. A Rede Globo
de Televisão produziu e exibiu a novela Saramandaia, em 1976, baseada no cordel
“O romance do pavão misterioso”, um clássico da literatura popular. Compositores
como Chico Buarque, Zé Ramalho, Nando Cordel, Raul Seixas, Ednardo e Alceu
Valença em algum momento se inspiraram nas sextilhas ou nas décimas dos cantadores
(TELMO, 2011).
Para as reflexões acerca da pesquisa, usamos a
premissa da compreensão de que “a poesia é um tipo de linguagem que manifesta o
seu conteúdo à medida que é forma, isto é, no momento que se define a
expressão” (CÂNDIDO, 2014, p. 32).
2 GÊNERO
LITERÁRIO
Os gêneros literários diferem-se dos gêneros
textuais na sua essência pragmática. Enquanto o segundo abrange todas as formas
de textos e são definidos pela função comunicativa, o primeiro limita-se apenas
aos textos relacionados à literatura. Assim, o bilhete, a carta, o telegrama, a
lista de compras, a bula de remédio, o jornal e outros são gêneros textuais; o
romance, o conto, o livro de poemas, a peça teatral, são gêneros literários.
A Literatura de Cordel situa-se, portanto,
dentre os gêneros literários, embora nem sempre tenha sido considerada como
tal. E é como gênero literário que percorre o país como uma das expressões
culturais mais populares do Brasil.
3 FUNDAMENTAÇÃO
TEÓRICA
A literatura é relativamente autônoma e, como
tal, não é meramente a imitação da realidade ou a mimese aristotélica. O
discurso literário não se delimita no tempo e no espaço, cujos enunciados são
criados para produzir sentido no leitor, dentro do seu contexto histórico-social,
como também da sua compreensão de mundo (KOCH, 2015). "A literatura não é
cópia do real, nem puro exercício de linguagem, tampouco mera fantasia que se
asilou dos sentidos do mundo e da história dos homens" (SEF, 1997, p. 37).
A criação literária é um processo subjetivo, cujo objetivo é produzir sensações
no público leitor e pode ou não estar misturado a procedimentos do cotidiano.
Madame Staël, na França, foi quem primeiro formulou e esboçou que a literatura
é também um produto social, exprimindo condições de cada civilização em que
ocorre (CÂNDIDO, 2014).
Enquanto a literatura erudita utiliza-se de
aspectos estéticos em realce da função poética (função social, filosófica e
ideológica), a literatura popular privilegia a função social (CÂNDIDO, 2014) e
o cordel reforça a estética poética na linearidade dos seus versos
metrificados, estrofes e rimas regulares, o que o torna de fácil aceitação por
um público acrítico. O cordel usa a linguagem social, ou seja, a língua em sua situação de uso, o
português não padrão que vem à tona com toda força transformadora (BAGNO, 2014,
grifo nosso), reforçado pela
afirmação de Possenti (2002, p. 55) de
que são “os gramáticos que consultam os escritores para verificar quais são as
regras que eles seguem, e não os escritores que consultam os gramáticos para
saber que regras devem seguir”.
4 METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de
caráter exploratório, cujo aporte teórico traz a contribuição dos estudos de Bagno
(2014), Cândido (2014) e Possenti (2002) e cuja coleta de dados foi
desenvolvida a partir da técnica de entrevistas semiestruturadas, tendo como
ponto de partida uma pesquisa bibliográfica sobre as manifestações cordelistas
no Brasil e suas influências junto às camadas elitizadas.
A pesquisa bibliográfica se baseia em material
previamente elaborado, constituído geralmente de livros e artigos científicos,
mas que não despreza outras fontes secundárias como: teses, dissertações, anais
de congressos e outros eventos científicos, jornais e revistas impressos e
eletrônicos e outras. A pesquisa exploratória, por sua vez, visa ao
esclarecimento de determinados fenômenos, dando uma visão geral do fato
estudado, sendo, por isso, caracterizada como uma primeira parte de uma
pesquisa mais ampla. Costumeiramente, envolve levantamento bibliográfico e
documental, entrevistas não padronizadas e estudos de caso (GIL, 2008).
Sobre a abordagem qualitativa, Oliveira (1999) apud Oliveira (2008, p. 47) esclarece
que esse tipo de técnica proporciona “compreender [...] processos sociais,
oferecer contribuições no processo das mudanças, criação e formação de opiniões
de determinados grupos e interpretação das particularidades dos comportamentos
ou atitudes dos indivíduos”.
Marconi e Lakatos (1999, p. 94) definem
entrevista como um “encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha
informações a respeito de um determinado assunto. ” As entrevistas podem ser
estruturadas, não estruturadas ou semiestruturadas. Para a presente pesquisa,
foram realizadas entrevistas semiestruturadas, por permitirem maior
flexibilidade e adaptação ao contexto e ao entrevistado, mantendo, contudo, a
formalidade das perguntas norteadoras iniciais, pois, como assevera Minayo (2001),
as entrevistas semiestruturadas combinam a liberdade de abordagem do tema pelo
entrevistado e as perguntas previamente elaboradas pelo entrevistador.
As entrevistas foram dirigidas a dois
escritores de cordel e a uma proprietária de loja de artigos da cultura popular
– folhetos, esculturas de madeira e de barro – no Mercado de Artesanato, em
Maceió, e na praia do Francês.
Os
poetas cordelistas responderam a perguntas específicas, relacionadas ao
objetivo da pesquisa. O primeiro, Carlos Silva, respondeu via Messenger, no dia
06 de dezembro de 2018; o segundo, Jorge Calheiros, respondeu em entrevista
gravada em vídeo, na Biblioteca Graciliano Ramos, no dia 21 de dezembro de 2018
e a entrevista com a proprietária da loja de produtos da cultura popular, Rosa
Maria, também gravada em vídeo, ocorreu em um fast-food localizado no Maceió Shopping, no dia 03 de dezembro de
2018.
5 RESULTADOS
E DISCUSSÃO
O roteiro previamente elaborado para a
realização da entrevista contou com um repertório de cinco perguntas (Quadro 1)
dirigidas ao cordelista Carlos Silva.
Quadro 1 – Roteiro da Entrevista Semiestruturada
|
1. Antigamente o cordel era tido como uma literatura do
interior do Nordeste, mais especificamente das pequenas cidades, que era
levada nas vozes dos violeiros ou dos ceguinhos cantadores. O que mudou ao
longo dos anos? |
|
2. O leitor do cordel eletrônico é o mesmo do
folheto? |
|
3. Em artigo intitulado A literatura de cordel, publicado
na Folha de São Paulo em 01/06/1999 Ariano Suassuna dizia que "Quem faz,
e deve fazer, arte popular são os integrantes do 'quarto estado'", em
alusão aos três estados falados na Revolução Francesa: nobreza, clero e povo.
O quarto estado, segundo Suassuna, seria o Brasil não oficial, o Brasil dos
excluídos. Porém o poeta Carlos Pena Filho com "Episódio sinistro de
Virgulino Ferreira", Chico Buarque com "Violeira", aventuraram
na poesia popular. Zé Ramalho gravou um cordel de sua autoria. Isso não
contraria a argumentação de Suassuna de que somente quem vive à margem da
sociedade está capacitado a fazer cultura popular? |
|
4. Qual o público leitor, hoje, da literatura de cordel? |
|
5. Cada vez mais os cordelistas têm ocupado espaço nas
bienais e festas literárias, posando ao lado de escritores famosos da
literatura universal. Como está sendo a aceitação do cordel pelo público
leitor e pelos autores que frequentam essas vitrines literárias? |
Fonte:
Elaborado pelos autores, 2018.
De
acordo com o cordelista Carlos Silva, a literatura de cordel se transformou em
referência ao longo dos anos: “houve um interesse maior por esta modalidade
poética, de tanto se ouvir através dos mais velhos e hoje a literatura de
cordel invadiu sertões e cidades, tornando-se referência, principalmente em
trabalhos acadêmicos. ”
Na visão do cordelista, há diferença entre o
leitor do cordel eletrônico e o leitor do cordel tradicional, em folheto:
Há um
conservadorismo muito notório. O leitor de cordel tradicional, não se rende tanto
a leituras através do computador. Até (por uma questão de acompanhamento da
evolução cibernética) ele procura em alguns sites o que dizem e fazem com o
cordel.
Sobre a afirmativa de Suassuna e a alusão deste
ao quarto estado – o Brasil dos excluídos, Carlos Silva retruca: “a arte está
aberta para todo e qualquer cidadão independente do seu Estado de vivência
social, pois, em todos os meios de classes ou posições, existem poetas
dispostos a abraçar a inspiração que lhe chega de forma criativa. ”
Já com relação ao público leitor contemporâneo
da literatura de cordel, o cordelista afirma que a notoriedade deste tipo de
literatura se fez possível quando determinada emissora exibiu uma novela que
tinha como base norteadora um cordel:
Com a exibição
de uma novela numa determinada emissora, vimos a enxurrada de trabalhos em
escolas serem despontados como forma pedagógica, utilizando a literatura de
cordel, que já estava ali ao alcance e conhecimento de muitos, mas que não
tinha a notória percepção que lhe era devida. Os professores, alunos
debruçaram-se em encantos através dessa POPULARIDADE MIDIÁTICA. Todavia, nos
sertões e em outros estados da nossa federação, e independente dessa exibição
noveleira, já existia um povo fiel à leitura de cordel.
Carlos Silva faz questão de elucidar que
existem públicos que, à parte dos encantos promovidos pela mídia, sempre
reconheceram o valor da literatura de cordel, prestando-lhe a merecida
reverência. Com efeito, o cordelista assevera que a “junção entre o
academicismo e o popular se tornou mais estreita face ao interesse nacional,
pelo despertamento em relação à Literatura de Cordel. ”
A partir da indagação sobre a ocupação de
cordelistas em bienais e festas literárias e a integração com escritores
consagrados, Carlos Silva ressalta que:
Um SONETO nada
mais é que uma modalidade do cordel: para se formar uma estrutura poética de
soneto, utilizamos duas quadras (fazendo uma costura de rimas) e dois tercetos.
Só que há tempos atrás o escritor de nome nacional, não dava tanta importância
para a cultura cordelista, mas isso ganhou novos ares e ambos convivem, hoje,
em grandes exibições literárias, com muita tranquilidade, e isso enriquece
ainda mais a nossa querida literatura de cordel.
É o fruto da composição que se forma da
complementariedade entre a literatura erudita e a literatura popular: enquanto
a primeira trata de aspectos estéticos (que enfatizam as funções social,
filosófica e ideológica), a segunda se ocupa da função social, que encontra na
literatura de cordel uma estética poética na linearidade, como afirma Cândido
(2014).
Seguindo com as entrevistas, o rol das
perguntas feitas ao cordelista Jorge Calheiros segue descrito no Quadro 2.
Quadro 2 - Rol de
perguntas para a entrevista com Jorge Calheiros
|
1.
Qual sua relação com o Cordel? |
|
2.
O cordel de hoje segue a mesma linha de antigamente ou mudou alguma coisa? |
|
3.
Antigamente o cordel era tido como uma literatura menor. Hoje ainda existe o
preconceito? |
|
4.
Cada vez mais os cordelistas têm ocupado espaço nas bienais e festas
literárias, posando ao lado de escritores famosos da literatura universal.
Como está sendo a aceitação do cordel pelo público leitor e pelos autores que
frequentam essas vitrines literárias? |
Fonte:
Elaborado pelos autores, 2018.
Em resposta à primeira indagação, o cordelista Jorge
Calheiros afirmou que sua relação com o cordel data de seus 8-10 anos. À época,
em virtude das dificuldades financeiras de seu pai, não frequentava a escola...
nem ele, nem os seis irmãos. Ele aprendeu a ler e escrever por meio do cordel,
que desde então se transformou em sua paixão.
Quando perguntado se o cordel contemporâneo
segue a mesma linha do cordel tradicional, Jorge afirmou que mudou: “hoje, eu
pego em livros que não existe a métrica. ” Muito provavelmente, esse fenômeno
tem relação com a afirmativa de Possenti (2002, p. 55): “os gramáticos que
consultam os escritores para verificar quais são as regras que eles seguem, e
não os escritores que consultam os gramáticos para saber que regras devem
seguir. ”
A terceira pergunta trata do preconceito relativo
à condição de literatura menor que o cordel carrega consigo. Para o cordelista,
o preconceito existe e é relativo à cultura. Apesar de ter adquirido certa
usabilidade nas escolas, em virtude da visão produzida pela mídia (como se
verificou na entrevista com Carlos Silva), “alguns professores ainda têm a
ignorância de dizer que o cordel atrapalha a escola. ”
Já com relação à ocupação dos espaços nas
bienais e festas literárias, Jorge considera que a literatura de cordel tem
sido bem aceita: “todas as bienais, a literatura tá indo. Os grandes escritores
também dão apoio. Já tenho falado com muitos e eles têm me apoiado. Tem um de
Belo Horizonte que disse: Jorge, queria eu saber escrever cordel, que é uma
história linda e todo mundo gosta do cordel e eu fiquei honrado. ”
A pesquisa ganhou mais uma extraordinária
contribuição quando da entrevista com Rosa Maria, proprietária de loja de
produtos da cultura popular. O roteiro de perguntas segue no Quadro 3.
Quadro 3 – Roteiro da
Entrevista informal com Rosa Maria
|
1.
Como se iniciou o seu gosto pela literatura de cordel? |
|
2.
Esse gosto perdura até hoje? |
|
3.
O que levou a senhora a trazer esse gosto para Maceió e disponibilizar um
espaço no Mercado do Artesanato para a leitura desse tipo de produção
literária? |
|
4.
Os estudantes procuravam sua loja? |
|
5.
E esses estudantes eram mais de escolas públicas ou privadas? |
|
6.
A senhora vendia em média, por mês, quantos cordéis? A que público vendia
mais? E no Francês? |
|
7.
Dos cordelistas novos de Alagoas, tem algum que se destaque? |
Fonte:
Elaborado pelos autores, 2018.
A senhora Rosa Maria do Nascimento Silva é
natural do sertão pernambucano e começou a amar o cordel com os alunos de sua
mãe, que chegou a alfabetizar muitas crianças que, maravilhadas pela
possibilidade de ler, compravam diversos cordéis e se punham a ler debaixo de
árvores. As histórias lidas enchiam o coração de Rosa Maria: “tudo que eles
liam eu vivenciava na minha alma... eram histórias muito bonitas...”
Vindo para Maceió, a amante do cordel trouxe
esse gosto para a localidade do Mercado do Artesanato, onde tomou conhecimento
sobre um antigo vendedor que havia perdido o interesse em disseminar essa
literatura. Instigada por isso, montou um espaço apropriado, com mesinhas
tradicionais, como as que usara em Pernambuco, para a leitura cordelista e
passou a comercializar os cordéis. Sua intenção era divulgar a literatura de
cordel, por achá-la fascinante e rica, uma vez que traduzia “a alma pura do
nordestino, do homem simples, que ele bota para fora o que ele sente, sem se
preocupar com rimas, muitas vezes, apenas em expressar sentimentos. ”
Segundo Rosa Maria, os estudantes eram assíduos
frequentadores e compradores de cordéis em sua loja no Mercado do Artesanato.
Oriundos basicamente de escolas públicas, eram estudantes de escolas e de
universidades que “levados pelas solicitações dos mestres” buscavam o lugar
para fazer trabalhos acadêmicos (nos quais ela ficava feliz em ajudar, pois
emprestava-lhes o conhecimento e experiência de que era possuidora).
A microempresária chegava a vender, em média,
300 exemplares de cordéis, por mês. E seus compradores eram constituídos, em
sua maioria, por estudantes. Segundo Rosa, ainda havia muito preconceito com
relação à literatura de cordel. Esse preconceito era local, pois, ao
comercializar seus cordéis no Francês, os turistas enalteciam e se maravilhavam
com esse tipo de escrita literária e levavam os exemplares para seus locais de origem
com muito orgulho da aquisição.
Quando indagada sobre algum cordelista
contemporâneo alagoano que tenha alcançado destaque no cenário local e, até
mesmo, regional e nacional, Rosa citou o nome de Jorge Calheiros, mas lamentou
o fato de que os novos cordelistas estão fugindo das rimas autênticas do
cordel: “é preciso ter aquele traço do cordel do passado. ”
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo teve como objetivo erigir reflexões
acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos
espaços de feiras, festas e bienais literárias. A partir das entrevistas e do
confronto com os teóricos que embasaram este estudo foi possível verificar que
ainda há grande preconceito a respeito da literatura de cordel, ainda dita
literatura menor. Entretanto, com a abertura dos espaços midiáticos e das
bienais e outros eventos literários, a visão sobre este tipo de produção
literária vem mudando e conseguindo o respeito de muitos escritores da chamada
literatura erudita, o que promove grandes reflexões acerca da relação de poder
entre tais literaturas, como se propôs no objetivo desta pesquisa. Ainda que em
um ou outro momento se tente invalidar o valor do cordel enquanto manifestação
artística cultural, esse tipo de literatura se afirma cada dia mais, através
dos usos que se vem fazendo dela no meio erudito, o que a torna notoriamente
influente e marca sua ascensão às camadas mais elitizadas.
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