sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Escritores da Liberdade, um exemplo da autoridade docente

O TEMPO É O SENHOR DA RAZÃO

 
Análise do discurso na frase estampada na camiseta do então presidente da República Fernando Collor de Mello às vésperas de ser afastado do cargo para responder o processo de Impeachment aberto pelo Senado Federal.
 
Ronaldo Torres
Roseane Elias
Pedro Costa
Karla Juliana
Edson Santos                                                                                                  
         Analisaremos o provérbio latino “O Tempo é o senhor da razão” impresso na camisa de Fernando Collor de Mello às vésperas do seu afastamento da Presidência da República não pelo seu sentido Semântico-pragmático, ou seja, pela relação de um contexto, pelo conhecimento de mundo ou outro conhecimento que o leitor tenha em sua memória. Nossa análise far-se-á mediante no que se insere numa formação discursiva em função da memória histórica, do interdiscurso, da ideologia, da ressignificação do enunciado, considerando que o sujeito discursivo está relacionado com o simbólico e com o político.
 
MEMÓRIA HISTÓRICA
 
Fernando Collor de Mello foi eleito o primeiro presidente do Brasil em eleições diretas no ano de 1989 após vinte e um longos anos de ditadura. Até então era tido como um simples playboy que governava Alagoas cuja a mídia o vendeu, um ano antes das eleições, como um super-herói caçador de marajás por causas de algumas demissões de servidores públicos que ele promoveu durante seu governo de Alagoas.
Eleito, no seu primeiro dia de governo confiscou a poupança e todo o dinheiro que havia nas contas correntes, justificando só ter “uma bala para matar o tigre da inflação”. Esse confisco causou grande prejuízo nas finanças dos correntistas e também na economia do país.
Collor tomou posse no dia 15 de março de 1990 e em junho começaram as denúncias de corrupção no seu governo, tendo como principal operador seu tesoureiro de campanha Paulo César Farias, conhecido como PC Farias. Em 24 de maio de 1992 as denúncias atingiram diretamente o presidente da República: numa entrevista dada à revista Veja, Pedro Collor de Mello, acusava PC Farias de ser apenas o testa de ferro do seu irmão Fernando Collor. No dia seguinte a denúncia passou a ser investigada pela Polícia Federal. Oito dias depois da publicação da entrevista de Pedro Collor, foi instalada uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar PC Farias e as suas relações não republicanas com o presidente da República (Globo, 2017).
A CPMI confirmou a existência do esquema de corrupção montado por PC Farias em todos os níveis de governo e descobriu também que as despesas pessoais do presidente da República e de sua mulher, Rosane, eram pagas pelo empresário com cheques de contas em nome de fantasmas.  Era um esquema bilionário de arrecadação de recursos entre empresários sob a forma de propina e recursos públicos desviados. Esse esquema veio a público no depoimento de Eriberto França, motorista da secretária particular de Collor, Ana Acioli. Ele revelou à CPMI que os pagamentos das contas de Collor e sua esposa eram feitos com cheques de contas fantasmas, inclusive as despesas da Casa da Dinda, mansão particular onde o presidente residia, como também a compra de um Fiat Elba, que serviu de estopim para o processo de impeachment do presidente da República. Descobriu-se também que Ana Acioli e PC Farias fizeram saques de suas contas às vésperas do confisco imposto pelo chamado Plano Collor, em 16 de março de 1990 (Globo, 2017).
No dia 25 de agosto de 1992, às vésperas da leitura do relatório da CPMI, milhares de pessoas foram às ruas, num movimento que ficou conhecido como “cara-pintadas” e que foi liderado pelo presidente da UNE Lindemberg Farias.  No dia seguinte o relatório da CPMI foi aprovado por 16 votos a 5, concluindo que Collor havia desonrado o exercício da Presidência ao manter relações com o esquema PC Farias (Memorial, 2017).
No dia 1º de setembro o presidente da Associação Brasileira de Imprensa ABI), Barbosa Lima Sobrinho, e o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcelo Lavenère, entregaram o pedido de impeachment no Salão Verde da Câmara dos Deputados (Memorial, 2017).
No dia 29 de setembro de 1992 é aberto o processo de impeachment na Câmara dos Deputados e Collor é afastado do governo. Um dia antes, assediado pela imprensa, ele saiu para sua corrida rotineira usando do discurso ideológico na camiseta, como costumava fazer durante seu governo e que deixava os analistas políticos às voltas com as interpretações discursivas: “O Tempo é o senhor da razão”. Esta mensagem gerou muitas especulações e interpretações diversas e muitos foram os repórteres e comentaristas políticos que deram ao presidente a autoria da frase. Mais tarde descobriu-se que era uma citação latina muito usada por Ulisses Guimarães quando o país estava sob a égide da ditadura e o deputado paulista afirmava ser citação de Proust (Nascimento, 2019).
Ilustração 1: Camiseta com frase.  

Collor, online
 
 
ANÁLISE DO DISCURSO: O TEMPO É O SENHOR DA RAZÃO
 
Na AD a linguagem não é aceita como expressão de pensamento ou instrumento de comunicação. Ela é entendida como um trabalho simbólico em “que tomar a palavra é um ato social com todas as suas implicações, conflitos, reconhecimentos, relações de poder, constituição de identidade, etc” (ORLANDI, 1998 apud     GUERRA, 2010, p. 3), ou seja, considerando que o sujeito discursivo implica a relação do simbólico com o político o sentido do texto na AD constrói-se na articulação da história e da sociedade que o produziu, tornando o discurso um objeto linguístico e histórico o qual deve ser analisado simultaneamente (GREGOLIN, 1995,  apud      GUERRA, 2010).
 
O sujeito não é a fonte absoluta do significado, do sentido. Segundo Pêcheux , o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia. O sujeito é constituído por falas de outros sujeitos que resulta na interação de várias vozes na relação sócio ideológico. Ainda Pêcheux (1988, apud  Guerra 2010, p. 8), o sujeito é afetado por dois tipos de esquecimento: o número 1 é de natureza inconsciente e ideológica e acontece quando o sujeito rejeita (ou tenta apagar) de modo inconsciente tudo aquilo que não se insere na sua formação discursiva e ele se coloca como a origem de tudo que diz. O esquecimento número 2 é de caráter pré-consciente e o sujeito tem a ilusão de que o que ele diz tem apenas um significado e acredita que todos os interlocutores entenderão suas mensagens da mesma forma.
 
Pela memória discursiva contida no interdiscurso estampado na camisa do então presidente da República e nos enunciados de Ulisses Guimarães, podemos afirmar que a ideologia presente em cada enunciado é totalmente diferente um do outro. Pêcheux afirma que a AD “representa a possibilidade de ler no discurso textual os traços da memória histórica tomada no jogo da língua” (MALDIDIER, 2003 apud      PATTI, p. 29, 2009) e essa memória histórica flui cristalina deixando marcas da diferença entre o mesmo enunciado. Em Ulisses Guimarães a memória histórica nos direciona para um país que vivia no embate ideológico contra um sistema de governo ditatorial e extremamente repressivo, cuja tortura e morte dos que eram considerados inimigos do governo eram coisas rotineiras. O interdiscurso estampado na camiseta de Collor conduz a memória histórica pelas veredas da corrupção entranhada nos corredores do Palácio do Planalto, via Casa da Dinda, e de um tesoureiro de campanha chamado PC Farias.
  Na AD, segundo Orlandi (1998), o eixo que estrutura o funcionamento da linguagem é o contraditório entre a paráfrase e a polissemia.  A paráfrase é a reiteração do discurso e a polissemia a produção da diferença. A primeira, a paráfrase, corresponde ao enunciado contendo as mesmas ou diferentes palavras com o mesmo sentido em iguais ou diferentes situações proferidas por diferentes locutores; já a polissemia é uma ruptura dos processos de significação, um deslocamento dos sentidos. A paráfrase e a polissemia é um jogo entre o mesmo e o diferente.
Apesar de haver variação de locutores (Collor e Ulisses Guimarães) e de situação, nota-se que houve o retorno ao mesmo espaço dizível, ou seja, há a ocorrência da paráfrase. No entanto, nas mesmas condições da produção imediata do discurso, há o deslocamento de sentido, ou seja, ocorre a polissemia, cuja interpretação se realiza entre a memória institucional (arquivo) e os efeitos da memória (interdiscurso) que é a responsável por identificar essa transferência de sentido. Ulisses Guimarães citava o provérbio latino no sentido de manter a esperança viva na nação brasileira. O Tempo, um dia, mostraria as mazelas e atrocidades estatais que o governo negava. Na paráfrase de Collor de Mello ocorreu o deslocamento de sentido afetado, principalmente, pelo esquecimento número dois de Pêcheux (1988, apud  Guerra 2010, p. 8): Collor estava convencido de que  o que ele dizia tinha apenas um significado e que todos os interlocutores entenderiam sua mensagem da mesma forma e acreditariam na sua inocência, mas ocorreu justamente o contrário: as acusações de corrupção no seu governo eram fundamentadas em provas documentais e resultaram no seu afastamento da Presidência da República culminando no seu impeachment. A ironia desse triste evento estava justamente no fato de ele ter sido eleito usando o discurso de combate à corrupção (Bezerra, 2018).
 
REFERÊNCIAS
 COLLOR, online. 1992.
Disponível em:
https://twitter.com/collor/status/772423048876228608
Acessado em 15/11/2019.
FERNANDES, Rômulo Giácome de Oliveira e outros. A noção de sujeito na análise do discurso: notas introdutórias a partir de helena nagamine brandão. Teoliterias. 2012.
Disponível em:
http://teoliterias.blogspot.com/2012/11/a-nocao-de-sujeito-na-analise-do.html
Acessado em 15/11/2019.
GUERRA. Vânia Maria Lescano. A análise do discurso de linha francesa e a pesquisa nas ciências humanas. Campo Grande: Anais do sciencult. 2010.
Disponível em:
https://anaisonline.uems.br/index.php/sciencult/article/view/3274
Acessado em 15/11/2019.
NASCIMENTO, Celso. Senhor da razão. Gazeta do Povo, 2019.
Disponível em:
 
https://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/colunistas/celso-nascimento/senhor-da-razao-8fcednltlvcj0qy1hxx8p9jda/
 
Acessado em 18/11/2019.
 
ORLANDI,  Eni Puccinelli. Paráfrase e polissemia: a fluidez nos limites do simbólico. Campinas: Rua, v. 4, p. 9 a 19, 1998.
Disponível em:
https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rua/article/download/8640626/8177/
PATTI, Ane Ribeiro; ROMÃO, Lucília Maria Sousa. Sentidos e sujeitos discursivos: filhos e netos do narcotráfico no movimento do discurso. Ribeirão Preto: USP. 2009.
Disponível em:
https://www.ffclrp.usp.br/imagens_defesas/20_05_2010__10_52_38__43.pdf
Acessado em 15/11/2019.
MEMORIAL da democracia [museu multimídia dedicado à luta pela democracia no Brasil]. Desvendando os poderes de PC Farias. 2017.
Disponível em:
http://memorialdademocracia.com.br/card/cpi-desvenda-os-poderes-de-pc-farias
Acessado em 15/11/2019.
COLLOR
GLOBO. Impeachment de Collor. Memorial Globo. 2013.
Disponível em:
http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/coberturas/impeachment-de-collor/fotos-e-videos.htm
Acessado em 15/11/2019.
BEZERRA, Juliana. Impeachment de Collor. 2018.
Disponível em:
https://www.todamateria.com.br/impeachment-de-collor/
Acessado em 15/11/2019.
 


Equipe dos Excluídos












 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A LITERATURA POPULAR E A RELAÇÃO DE PODER COM A LITERATURA ERUDITA

 

 Transcrição: Luciana da Costa Bulhões ¹

Pesquisa: Pedro Costa Pereira ²

Texto e Pesquisa: Ronaldo Antônio Torres Cruz ³

Professora Doutora: Christiane Batinga Agra 4

 




RESUMO

 

Introdução: Carregado de uma essência cultural muito forte, os folhetos eram o principal meio de comunicação e alfabetização nas pequenas cidades do interior nordestino, onde eram levados por poetas cantadores, geralmente em lombo de cavalo. Devido à forte necessidade da leitura, os folhetos se tornaram em instrumento de multiletramento, pois a alfabetização para muitos nordestinos começou a partir da leitura desses folhetos informativos ou romanceados. Somente a partir da década de 1940 é que esse tipo literário ficou conhecido como literatura de cordel. Objetivo: erigir reflexões acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos espaços de feiras, festas e bienais literárias. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório, cujo aporte teórico traz as contribuições de Bagno (2014), Cândido (2014) e Possenti (2002) e a coleta de dados se deu por meio de entrevistas semiestruturadas. Resultados: O cordel sofreu modificações ao longo do tempo, sendo encontrado, muitas vezes, sem a métrica que sempre lhe foi tradicional. Contudo, também foi o passar dos anos que lhe trouxe a possibilidade de expandir seus horizontes, ao participar de bienais e diversas festas literárias, eventos em que se integra à literatura erudita e encurta a distância entre o fruto da literatura popular e o produto das elites literárias. Conclusão: O preconceito sobre o cordel ainda permeia o meio literário, contudo, são notórias as influências desta literatura nas produções literárias e composições musicais do meio erudito, ainda que em um ou outro momento se tente invalidar o seu valor enquanto manifestação artística cultural.

 

Palavras-chave: LITERATURA POPULAR. LITERATURA ERUDITA. INFLUÊNCIAS DO CORDEL.

 

 

THE POPULAR LITERATURE AND A RELATIONSHIP OF POWER

WITH A WRITING LITERATURE

 

Luciana da Costa Bulhões ¹

Pedro Costa Pereira ²

Ronaldo Antônio Torres Cruz ³

Christiane Batinga Agra 4

 

 

ABSTRACT

 

Introduction: Loaded with a very strong cultural essence, the leaflets were the main means of communication and literacy in the small cities of the northeastern interior, where they were taken by singing poets, usually on horseback. Due to the strong need for reading, the brochures became a multilevel instrument, since literacy for many Northeastern people began from reading these informative or romanticized pamphlets. It was not until the 1940s that this literary type became known as string literature. Objective: to construct reflections about the relation of the cordel literature with the traditional literature in the spaces of fairs, parties and literary biennials. Methodology: This is a bibliographical research, with a qualitative and exploratory approach, whose theoretical contribution brings the contributions of Bagno (2014), Cândido (2014) and Possenti (2002) and data collection was done through semi-structured interviews . Results: The string has undergone modifications over time, being found, many times, without the metric that has always been traditional to it. However, it was also the passing of the years that brought him the possibility of expanding his horizons by participating in biennials and various literary festivals, events in which he integrates with scholarly literature and shortens the distance between the fruit of popular literature and the product of elites literary works. Conclusion: The prejudice about the cord still permeates the literary milieu, however, the influences of this literature in the literary productions and musical compositions of the middle scholar are notorious, although at one time or another it is tried to invalidate its value as a cultural artistic manifestation.

 

Keywords: POPULAR LITERATURE. ERUDITE LITERATURE. INFLUENCES OF CORDEL.

 

 

 

 


1 INTRODUÇÃO

 

Este artigo tem como objetivo erigir reflexões acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos espaços de feiras, festas e bienais literárias.

O cordel é uma narrativa poética geralmente estruturada em estrofes de seis versos (sextilha) e em sete sílabas poéticas, com rimas obrigatórias no segundo, quarto e sexto versos, impresso em formato de folheto (CORDA, 2018). Sua origem data dos cantadores medievais e chegou na Península Ibérica por volta do século XVI e em Portugal recebeu o nome de “folhas soltas” ou “volantes”. Com a invenção da prensa os folhetos impressos passaram a ser vendidos pendurados em cordel, vindo daí o seu nome atual (CORDEL, 2016). Aportou no Brasil nas malas dos colonizadores, se instalando primeiramente em Salvador, à época, capital da colônia, expandindo-se, depois, para outros estados do Nordeste, levados pelas vozes dos poetas cantadores e ceguinhos declamadores, e essa poesia oral não tinha ainda uma identidade própria, não podendo ser chamada de literatura, pois a oralidade é uma forma de comunicação e não uma natureza literária. A literatura está sujeita à palavra impressa (MOISÉS, 2012). Somente no final do século XIX a poesia popular teve seus primeiros exemplares impressos. Coube a Leandro Gomes de Barros, um poeta popular, imprimir os primeiros folhetos – como ficou conhecido o cordel – e comercializá-los, fazendo muito sucesso junto à classe popular (TELMO, 2011).

Carregado de uma essência cultural muito forte, os folhetos eram o principal meio de comunicação e alfabetização nas pequenas cidades do interior nordestino, onde eram levados por poetas cantadores, geralmente em lombo de cavalo. Devido à forte necessidade da leitura, os folhetos se tornaram em instrumento de multiletramento, pois a alfabetização para muitos nordestinos começou a partir da leitura desses folhetos informativos ou romanceados. Somente a partir da década de 1940 é que esse tipo literário ficou conhecido como literatura de cordel (CORDEL, 2016; TELMO, 2011).

O cordel tem inspirado escritores eruditos e a compositores da música popular brasileira ao longo do tempo e a “espontaneidade e graça dessas criações fazem com que o leitor urbano, mais sofisticado, lhes dedique interesse, despertando ainda a pesquisa e análise de eruditos universitários” (Drummond, apud DIAS, 2013). João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, escritores consagrados na nossa literatura, foram influenciados pelo cordel. A Rede Globo de Televisão produziu e exibiu a novela Saramandaia, em 1976, baseada no cordel “O romance do pavão misterioso”, um clássico da literatura popular. Compositores como Chico Buarque, Zé Ramalho, Nando Cordel, Raul Seixas, Ednardo e Alceu Valença em algum momento se inspiraram nas sextilhas ou nas décimas dos cantadores (TELMO, 2011).

Para as reflexões acerca da pesquisa, usamos a premissa da compreensão de que “a poesia é um tipo de linguagem que manifesta o seu conteúdo à medida que é forma, isto é, no momento que se define a expressão” (CÂNDIDO, 2014, p. 32).

 

 

2 GÊNERO LITERÁRIO

 

Os gêneros literários diferem-se dos gêneros textuais na sua essência pragmática. Enquanto o segundo abrange todas as formas de textos e são definidos pela função comunicativa, o primeiro limita-se apenas aos textos relacionados à literatura. Assim, o bilhete, a carta, o telegrama, a lista de compras, a bula de remédio, o jornal e outros são gêneros textuais; o romance, o conto, o livro de poemas, a peça teatral, são gêneros literários.

A Literatura de Cordel situa-se, portanto, dentre os gêneros literários, embora nem sempre tenha sido considerada como tal. E é como gênero literário que percorre o país como uma das expressões culturais mais populares do Brasil.

 

 

3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

 

A literatura é relativamente autônoma e, como tal, não é meramente a imitação da realidade ou a mimese aristotélica. O discurso literário não se delimita no tempo e no espaço, cujos enunciados são criados para produzir sentido no leitor, dentro do seu contexto histórico-social, como também da sua compreensão de mundo (KOCH, 2015). "A literatura não é cópia do real, nem puro exercício de linguagem, tampouco mera fantasia que se asilou dos sentidos do mundo e da história dos homens" (SEF, 1997, p. 37). A criação literária é um processo subjetivo, cujo objetivo é produzir sensações no público leitor e pode ou não estar misturado a procedimentos do cotidiano. Madame Staël, na França, foi quem primeiro formulou e esboçou que a literatura é também um produto social, exprimindo condições de cada civilização em que ocorre (CÂNDIDO, 2014).

Enquanto a literatura erudita utiliza-se de aspectos estéticos em realce da função poética (função social, filosófica e ideológica), a literatura popular privilegia a função social (CÂNDIDO, 2014) e o cordel reforça a estética poética na linearidade dos seus versos metrificados, estrofes e rimas regulares, o que o torna de fácil aceitação por um público acrítico. O cordel usa a linguagem social, ou seja, a língua em sua situação de uso, o português não padrão que vem à tona com toda força transformadora (BAGNO, 2014, grifo nosso), reforçado pela afirmação de Possenti (2002, p.  55) de que são “os gramáticos que consultam os escritores para verificar quais são as regras que eles seguem, e não os escritores que consultam os gramáticos para saber que regras devem seguir”.

 

 

4 METODOLOGIA

 

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, cujo aporte teórico traz a contribuição dos estudos de Bagno (2014), Cândido (2014) e Possenti (2002) e cuja coleta de dados foi desenvolvida a partir da técnica de entrevistas semiestruturadas, tendo como ponto de partida uma pesquisa bibliográfica sobre as manifestações cordelistas no Brasil e suas influências junto às camadas elitizadas.

A pesquisa bibliográfica se baseia em material previamente elaborado, constituído geralmente de livros e artigos científicos, mas que não despreza outras fontes secundárias como: teses, dissertações, anais de congressos e outros eventos científicos, jornais e revistas impressos e eletrônicos e outras. A pesquisa exploratória, por sua vez, visa ao esclarecimento de determinados fenômenos, dando uma visão geral do fato estudado, sendo, por isso, caracterizada como uma primeira parte de uma pesquisa mais ampla. Costumeiramente, envolve levantamento bibliográfico e documental, entrevistas não padronizadas e estudos de caso (GIL, 2008).

Sobre a abordagem qualitativa, Oliveira (1999) apud Oliveira (2008, p. 47) esclarece que esse tipo de técnica proporciona “compreender [...] processos sociais, oferecer contribuições no processo das mudanças, criação e formação de opiniões de determinados grupos e interpretação das particularidades dos comportamentos ou atitudes dos indivíduos”.

Marconi e Lakatos (1999, p. 94) definem entrevista como um “encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de um determinado assunto. ” As entrevistas podem ser estruturadas, não estruturadas ou semiestruturadas. Para a presente pesquisa, foram realizadas entrevistas semiestruturadas, por permitirem maior flexibilidade e adaptação ao contexto e ao entrevistado, mantendo, contudo, a formalidade das perguntas norteadoras iniciais, pois, como assevera Minayo (2001), as entrevistas semiestruturadas combinam a liberdade de abordagem do tema pelo entrevistado e as perguntas previamente elaboradas pelo entrevistador.

As entrevistas foram dirigidas a dois escritores de cordel e a uma proprietária de loja de artigos da cultura popular – folhetos, esculturas de madeira e de barro – no Mercado de Artesanato, em Maceió, e na praia do Francês.

 Os poetas cordelistas responderam a perguntas específicas, relacionadas ao objetivo da pesquisa. O primeiro, Carlos Silva, respondeu via Messenger, no dia 06 de dezembro de 2018; o segundo, Jorge Calheiros, respondeu em entrevista gravada em vídeo, na Biblioteca Graciliano Ramos, no dia 21 de dezembro de 2018 e a entrevista com a proprietária da loja de produtos da cultura popular, Rosa Maria, também gravada em vídeo, ocorreu em um fast-food localizado no Maceió Shopping, no dia 03 de dezembro de 2018.

 

 

5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

O roteiro previamente elaborado para a realização da entrevista contou com um repertório de cinco perguntas (Quadro 1) dirigidas ao cordelista Carlos Silva.

 

 

 

 

 

 

Quadro 1 – Roteiro da Entrevista Semiestruturada

 

1. Antigamente o cordel era tido como uma literatura do interior do Nordeste, mais especificamente das pequenas cidades, que era levada nas vozes dos violeiros ou dos ceguinhos cantadores. O que mudou ao longo dos anos? 

 

2. O leitor do cordel eletrônico é o mesmo do folheto?  

 

3. Em artigo intitulado A literatura de cordel, publicado na Folha de São Paulo em 01/06/1999 Ariano Suassuna dizia que "Quem faz, e deve fazer, arte popular são os integrantes do 'quarto estado'", em alusão aos três estados falados na Revolução Francesa: nobreza, clero e povo. O quarto estado, segundo Suassuna, seria o Brasil não oficial, o Brasil dos excluídos. Porém o poeta Carlos Pena Filho com "Episódio sinistro de Virgulino Ferreira", Chico Buarque com "Violeira", aventuraram na poesia popular. Zé Ramalho gravou um cordel de sua autoria. Isso não contraria a argumentação de Suassuna de que somente quem vive à margem da sociedade está capacitado a fazer cultura popular?

 

4. Qual o público leitor, hoje, da literatura de cordel?

5. Cada vez mais os cordelistas têm ocupado espaço nas bienais e festas literárias, posando ao lado de escritores famosos da literatura universal. Como está sendo a aceitação do cordel pelo público leitor e pelos autores que frequentam essas vitrines literárias?

    Fonte: Elaborado pelos autores, 2018.

 

            De acordo com o cordelista Carlos Silva, a literatura de cordel se transformou em referência ao longo dos anos: “houve um interesse maior por esta modalidade poética, de tanto se ouvir através dos mais velhos e hoje a literatura de cordel invadiu sertões e cidades, tornando-se referência, principalmente em trabalhos acadêmicos. ”

Na visão do cordelista, há diferença entre o leitor do cordel eletrônico e o leitor do cordel tradicional, em folheto:

 

Há um conservadorismo muito notório. O leitor de cordel tradicional, não se rende tanto a leituras através do computador. Até (por uma questão de acompanhamento da evolução cibernética) ele procura em alguns sites o que dizem e fazem com o cordel.

 

Sobre a afirmativa de Suassuna e a alusão deste ao quarto estado – o Brasil dos excluídos, Carlos Silva retruca: “a arte está aberta para todo e qualquer cidadão independente do seu Estado de vivência social, pois, em todos os meios de classes ou posições, existem poetas dispostos a abraçar a inspiração que lhe chega de forma criativa. ”

Já com relação ao público leitor contemporâneo da literatura de cordel, o cordelista afirma que a notoriedade deste tipo de literatura se fez possível quando determinada emissora exibiu uma novela que tinha como base norteadora um cordel:

 

Com a exibição de uma novela numa determinada emissora, vimos a enxurrada de trabalhos em escolas serem despontados como forma pedagógica, utilizando a literatura de cordel, que já estava ali ao alcance e conhecimento de muitos, mas que não tinha a notória percepção que lhe era devida. Os professores, alunos debruçaram-se em encantos através dessa POPULARIDADE MIDIÁTICA. Todavia, nos sertões e em outros estados da nossa federação, e independente dessa exibição noveleira, já existia um povo fiel à leitura de cordel.

 

Carlos Silva faz questão de elucidar que existem públicos que, à parte dos encantos promovidos pela mídia, sempre reconheceram o valor da literatura de cordel, prestando-lhe a merecida reverência. Com efeito, o cordelista assevera que a “junção entre o academicismo e o popular se tornou mais estreita face ao interesse nacional, pelo despertamento em relação à Literatura de Cordel. ”

A partir da indagação sobre a ocupação de cordelistas em bienais e festas literárias e a integração com escritores consagrados, Carlos Silva ressalta que:

 

Um SONETO nada mais é que uma modalidade do cordel: para se formar uma estrutura poética de soneto, utilizamos duas quadras (fazendo uma costura de rimas) e dois tercetos. Só que há tempos atrás o escritor de nome nacional, não dava tanta importância para a cultura cordelista, mas isso ganhou novos ares e ambos convivem, hoje, em grandes exibições literárias, com muita tranquilidade, e isso enriquece ainda mais a nossa querida literatura de cordel.

 

É o fruto da composição que se forma da complementariedade entre a literatura erudita e a literatura popular: enquanto a primeira trata de aspectos estéticos (que enfatizam as funções social, filosófica e ideológica), a segunda se ocupa da função social, que encontra na literatura de cordel uma estética poética na linearidade, como afirma Cândido (2014).

Seguindo com as entrevistas, o rol das perguntas feitas ao cordelista Jorge Calheiros segue descrito no Quadro 2.

 

 

Quadro 2 - Rol de perguntas para a entrevista com Jorge Calheiros

1. Qual sua relação com o Cordel?

2. O cordel de hoje segue a mesma linha de antigamente ou mudou alguma coisa?

3. Antigamente o cordel era tido como uma literatura menor. Hoje ainda existe o preconceito?

4. Cada vez mais os cordelistas têm ocupado espaço nas bienais e festas literárias, posando ao lado de escritores famosos da literatura universal. Como está sendo a aceitação do cordel pelo público leitor e pelos autores que frequentam essas vitrines literárias?

    Fonte: Elaborado pelos autores, 2018.

 

Em resposta à primeira indagação, o cordelista Jorge Calheiros afirmou que sua relação com o cordel data de seus 8-10 anos. À época, em virtude das dificuldades financeiras de seu pai, não frequentava a escola... nem ele, nem os seis irmãos. Ele aprendeu a ler e escrever por meio do cordel, que desde então se transformou em sua paixão.

Quando perguntado se o cordel contemporâneo segue a mesma linha do cordel tradicional, Jorge afirmou que mudou: “hoje, eu pego em livros que não existe a métrica. ” Muito provavelmente, esse fenômeno tem relação com a afirmativa de Possenti (2002, p. 55): “os gramáticos que consultam os escritores para verificar quais são as regras que eles seguem, e não os escritores que consultam os gramáticos para saber que regras devem seguir. ”

A terceira pergunta trata do preconceito relativo à condição de literatura menor que o cordel carrega consigo. Para o cordelista, o preconceito existe e é relativo à cultura. Apesar de ter adquirido certa usabilidade nas escolas, em virtude da visão produzida pela mídia (como se verificou na entrevista com Carlos Silva), “alguns professores ainda têm a ignorância de dizer que o cordel atrapalha a escola. ”

Já com relação à ocupação dos espaços nas bienais e festas literárias, Jorge considera que a literatura de cordel tem sido bem aceita: “todas as bienais, a literatura tá indo. Os grandes escritores também dão apoio. Já tenho falado com muitos e eles têm me apoiado. Tem um de Belo Horizonte que disse: Jorge, queria eu saber escrever cordel, que é uma história linda e todo mundo gosta do cordel e eu fiquei honrado. ”

A pesquisa ganhou mais uma extraordinária contribuição quando da entrevista com Rosa Maria, proprietária de loja de produtos da cultura popular. O roteiro de perguntas segue no Quadro 3.

 

Quadro 3 – Roteiro da Entrevista informal com Rosa Maria

1. Como se iniciou o seu gosto pela literatura de cordel?

2. Esse gosto perdura até hoje?

3. O que levou a senhora a trazer esse gosto para Maceió e disponibilizar um espaço no Mercado do Artesanato para a leitura desse tipo de produção literária?

4. Os estudantes procuravam sua loja?

5. E esses estudantes eram mais de escolas públicas ou privadas?

6. A senhora vendia em média, por mês, quantos cordéis? A que público vendia mais? E no Francês?

7. Dos cordelistas novos de Alagoas, tem algum que se destaque?

Fonte: Elaborado pelos autores, 2018.

 

A senhora Rosa Maria do Nascimento Silva é natural do sertão pernambucano e começou a amar o cordel com os alunos de sua mãe, que chegou a alfabetizar muitas crianças que, maravilhadas pela possibilidade de ler, compravam diversos cordéis e se punham a ler debaixo de árvores. As histórias lidas enchiam o coração de Rosa Maria: “tudo que eles liam eu vivenciava na minha alma... eram histórias muito bonitas...”

Vindo para Maceió, a amante do cordel trouxe esse gosto para a localidade do Mercado do Artesanato, onde tomou conhecimento sobre um antigo vendedor que havia perdido o interesse em disseminar essa literatura. Instigada por isso, montou um espaço apropriado, com mesinhas tradicionais, como as que usara em Pernambuco, para a leitura cordelista e passou a comercializar os cordéis. Sua intenção era divulgar a literatura de cordel, por achá-la fascinante e rica, uma vez que traduzia “a alma pura do nordestino, do homem simples, que ele bota para fora o que ele sente, sem se preocupar com rimas, muitas vezes, apenas em expressar sentimentos. ”

Segundo Rosa Maria, os estudantes eram assíduos frequentadores e compradores de cordéis em sua loja no Mercado do Artesanato. Oriundos basicamente de escolas públicas, eram estudantes de escolas e de universidades que “levados pelas solicitações dos mestres” buscavam o lugar para fazer trabalhos acadêmicos (nos quais ela ficava feliz em ajudar, pois emprestava-lhes o conhecimento e experiência de que era possuidora).

A microempresária chegava a vender, em média, 300 exemplares de cordéis, por mês. E seus compradores eram constituídos, em sua maioria, por estudantes. Segundo Rosa, ainda havia muito preconceito com relação à literatura de cordel. Esse preconceito era local, pois, ao comercializar seus cordéis no Francês, os turistas enalteciam e se maravilhavam com esse tipo de escrita literária e levavam os exemplares para seus locais de origem com muito orgulho da aquisição.

Quando indagada sobre algum cordelista contemporâneo alagoano que tenha alcançado destaque no cenário local e, até mesmo, regional e nacional, Rosa citou o nome de Jorge Calheiros, mas lamentou o fato de que os novos cordelistas estão fugindo das rimas autênticas do cordel: “é preciso ter aquele traço do cordel do passado. ”

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

Este artigo teve como objetivo erigir reflexões acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos espaços de feiras, festas e bienais literárias. A partir das entrevistas e do confronto com os teóricos que embasaram este estudo foi possível verificar que ainda há grande preconceito a respeito da literatura de cordel, ainda dita literatura menor. Entretanto, com a abertura dos espaços midiáticos e das bienais e outros eventos literários, a visão sobre este tipo de produção literária vem mudando e conseguindo o respeito de muitos escritores da chamada literatura erudita, o que promove grandes reflexões acerca da relação de poder entre tais literaturas, como se propôs no objetivo desta pesquisa. Ainda que em um ou outro momento se tente invalidar o valor do cordel enquanto manifestação artística cultural, esse tipo de literatura se afirma cada dia mais, através dos usos que se vem fazendo dela no meio erudito, o que a torna notoriamente influente e marca sua ascensão às camadas mais elitizadas.

 

 


REFERÊNCIAS

 

 

 

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