sexta-feira, 28 de agosto de 2026
O TEMPO É O SENHOR DA RAZÃO
Análise
do discurso na frase estampada na camiseta do então presidente da República Fernando
Collor de Mello às vésperas de ser afastado do cargo para responder o processo
de Impeachment aberto pelo Senado Federal.
Ronaldo Torres
Roseane Elias
Pedro Costa
Karla Juliana
Edson Santos
Analisaremos o provérbio latino “O
Tempo é o senhor da razão” impresso na camisa de Fernando Collor de Mello às
vésperas do seu afastamento da Presidência da República não pelo seu sentido
Semântico-pragmático, ou seja, pela relação de um contexto, pelo conhecimento
de mundo ou outro conhecimento que o leitor tenha em sua memória. Nossa análise
far-se-á mediante no que se insere numa formação discursiva em função da
memória histórica, do interdiscurso, da ideologia, da ressignificação do
enunciado, considerando que o sujeito discursivo está relacionado com o
simbólico e com o político.
MEMÓRIA
HISTÓRICA
Fernando
Collor de Mello foi eleito o primeiro presidente do Brasil em eleições diretas no
ano de 1989 após vinte e um longos anos de ditadura. Até então era tido como um
simples playboy que governava Alagoas cuja a mídia o vendeu, um ano antes das
eleições, como um super-herói caçador de marajás por causas de algumas
demissões de servidores públicos que ele promoveu durante seu governo de
Alagoas.
Eleito,
no seu primeiro dia de governo confiscou a poupança e todo o dinheiro que havia
nas contas correntes, justificando só ter “uma bala para matar o tigre da
inflação”. Esse confisco causou grande prejuízo nas finanças dos correntistas e
também na economia do país.
Collor
tomou posse no dia 15 de março de 1990 e em junho começaram as denúncias de
corrupção no seu governo, tendo como principal operador seu tesoureiro de
campanha Paulo César Farias, conhecido como PC Farias. Em 24 de maio de 1992 as
denúncias atingiram diretamente o presidente da República: numa entrevista dada
à revista Veja, Pedro Collor de Mello, acusava PC Farias de ser apenas o testa
de ferro do seu irmão Fernando Collor. No dia seguinte a denúncia passou a ser
investigada pela Polícia Federal. Oito dias depois da publicação da entrevista
de Pedro Collor, foi instalada uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI)
para investigar PC Farias e as suas relações não republicanas com o presidente
da República (Globo, 2017).
A
CPMI confirmou a existência do esquema de corrupção montado por PC Farias em
todos os níveis de governo e descobriu também que as despesas pessoais do
presidente da República e de sua mulher, Rosane, eram pagas pelo empresário com
cheques de contas em nome de fantasmas. Era um esquema bilionário de
arrecadação de recursos entre empresários sob a forma de propina e recursos
públicos desviados. Esse esquema veio a público no depoimento de Eriberto
França, motorista da secretária particular de Collor, Ana Acioli. Ele revelou à
CPMI que os pagamentos das contas de Collor e sua esposa eram feitos com
cheques de contas fantasmas, inclusive as despesas da Casa da Dinda, mansão
particular onde o presidente residia, como também a compra de um Fiat Elba, que
serviu de estopim para o processo de impeachment do presidente da República.
Descobriu-se também que Ana Acioli e PC Farias fizeram saques de suas contas às
vésperas do confisco imposto pelo chamado Plano Collor, em 16 de março de 1990
(Globo, 2017).
No
dia 25 de agosto de 1992, às vésperas da leitura do relatório da CPMI, milhares
de pessoas foram às ruas, num movimento que ficou conhecido como
“cara-pintadas” e que foi liderado pelo presidente da UNE Lindemberg
Farias. No dia seguinte o relatório da
CPMI foi aprovado por 16 votos a 5, concluindo que Collor havia desonrado o
exercício da Presidência ao manter relações com o esquema PC Farias (Memorial,
2017).
No dia 1º de
setembro o presidente da Associação Brasileira de Imprensa ABI), Barbosa Lima
Sobrinho, e o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcelo
Lavenère, entregaram o pedido de impeachment no Salão Verde da Câmara dos
Deputados (Memorial, 2017).
No
dia 29 de setembro de 1992 é aberto o processo de impeachment na Câmara dos
Deputados e Collor é afastado do governo. Um dia antes, assediado pela
imprensa, ele saiu para sua corrida rotineira usando do discurso ideológico na
camiseta, como costumava fazer durante seu governo e que deixava os analistas
políticos às voltas com as interpretações discursivas: “O Tempo é o senhor da
razão”. Esta mensagem gerou muitas especulações e interpretações diversas e
muitos foram os repórteres e comentaristas políticos que deram ao presidente a
autoria da frase. Mais tarde descobriu-se que era uma citação latina muito
usada por Ulisses Guimarães quando o país estava sob a égide da ditadura e o
deputado paulista afirmava ser citação de Proust (Nascimento, 2019).
Ilustração
1: Camiseta com frase.
Collor, online
ANÁLISE
DO DISCURSO: O TEMPO É O SENHOR DA RAZÃO
Na AD
a linguagem não é aceita como expressão de pensamento ou instrumento de
comunicação. Ela é entendida como um trabalho simbólico em “que tomar a palavra
é um ato social com todas as suas implicações, conflitos, reconhecimentos,
relações de poder, constituição de identidade, etc” (ORLANDI, 1998 apud GUERRA, 2010, p. 3), ou seja, considerando que
o sujeito discursivo implica a relação do simbólico com o político o sentido do texto na AD constrói-se
na articulação da história e da sociedade que o produziu, tornando o discurso
um objeto linguístico e histórico o qual deve ser analisado simultaneamente (GREGOLIN,
1995, apud GUERRA, 2010).
O sujeito não é a fonte absoluta do significado, do sentido. Segundo
Pêcheux , o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia. O sujeito é
constituído por falas de outros sujeitos que resulta na interação de várias
vozes na relação sócio ideológico. Ainda Pêcheux (1988,
apud Guerra 2010, p. 8), o
sujeito é afetado por dois tipos de esquecimento: o número 1 é de natureza
inconsciente e ideológica e acontece quando o sujeito rejeita (ou tenta apagar)
de modo inconsciente tudo aquilo que não se insere na sua formação discursiva e
ele se coloca como a origem de tudo que diz. O esquecimento número 2 é de
caráter pré-consciente e o sujeito tem a ilusão de que o que ele diz tem apenas
um significado e acredita que todos os interlocutores entenderão suas mensagens
da mesma forma.
Pela
memória discursiva contida no interdiscurso estampado na camisa do então
presidente da República e nos enunciados de Ulisses Guimarães, podemos afirmar
que a ideologia presente em cada enunciado é totalmente diferente um do outro.
Pêcheux afirma que a AD “representa a possibilidade de ler no discurso textual
os traços da memória histórica tomada no jogo da língua” (MALDIDIER, 2003 apud
PATTI, p. 29, 2009) e essa
memória histórica flui cristalina deixando marcas da diferença entre o mesmo
enunciado. Em Ulisses Guimarães a memória histórica nos direciona para um país
que vivia no embate ideológico contra um sistema de governo ditatorial e
extremamente repressivo, cuja tortura e morte dos que eram considerados
inimigos do governo eram coisas rotineiras. O interdiscurso estampado na
camiseta de Collor conduz a memória histórica pelas veredas da corrupção
entranhada nos corredores do Palácio do Planalto, via Casa da Dinda, e de um
tesoureiro de campanha chamado PC Farias.
Na AD,
segundo Orlandi (1998), o eixo que estrutura o funcionamento da linguagem é o
contraditório entre a paráfrase e a polissemia. A paráfrase é a
reiteração do discurso e a polissemia a produção da diferença. A primeira, a
paráfrase, corresponde ao enunciado contendo as mesmas ou diferentes palavras
com o mesmo sentido em iguais ou diferentes situações proferidas por diferentes
locutores; já a polissemia é uma ruptura dos processos de significação, um
deslocamento dos sentidos. A paráfrase e a polissemia é um jogo entre o mesmo e
o diferente.
Apesar
de haver variação de locutores (Collor e Ulisses Guimarães) e de situação,
nota-se que houve o retorno ao mesmo espaço dizível, ou seja, há a ocorrência
da paráfrase. No entanto, nas mesmas condições da produção imediata do
discurso, há o deslocamento de sentido, ou seja, ocorre a polissemia, cuja
interpretação se realiza entre a memória institucional (arquivo) e os efeitos
da memória (interdiscurso) que é a responsável por identificar essa
transferência de sentido. Ulisses Guimarães citava o provérbio latino no
sentido de manter a esperança viva na nação brasileira. O Tempo, um dia,
mostraria as mazelas e atrocidades estatais que o governo negava. Na paráfrase
de Collor de Mello ocorreu o deslocamento de sentido afetado, principalmente, pelo
esquecimento número dois de Pêcheux (1988,
apud Guerra 2010, p. 8):
Collor estava convencido de que o que
ele dizia tinha apenas um significado e que todos os interlocutores entenderiam
sua mensagem da mesma forma e acreditariam na sua inocência, mas ocorreu
justamente o contrário: as acusações de corrupção no seu governo eram
fundamentadas em provas documentais e resultaram no seu afastamento da
Presidência da República culminando no seu impeachment. A ironia desse triste
evento estava justamente no fato de ele ter sido eleito usando o discurso de
combate à corrupção (Bezerra, 2018).
REFERÊNCIAS
COLLOR, online. 1992.
Disponível em:
https://twitter.com/collor/status/772423048876228608
Acessado em 15/11/2019.
FERNANDES, Rômulo Giácome de Oliveira e outros. A noção de sujeito na análise do discurso:
notas introdutórias a partir de helena nagamine brandão. Teoliterias. 2012.
Disponível em:
http://teoliterias.blogspot.com/2012/11/a-nocao-de-sujeito-na-analise-do.html
Acessado em 15/11/2019.
GUERRA. Vânia Maria Lescano. A análise do discurso de linha francesa e a pesquisa
nas ciências humanas. Campo Grande: Anais do sciencult.
2010.
Disponível em:
https://anaisonline.uems.br/index.php/sciencult/article/view/3274
Acessado em 15/11/2019.
NASCIMENTO,
Celso. Senhor da razão. Gazeta do
Povo, 2019.
Disponível
em:
https://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/colunistas/celso-nascimento/senhor-da-razao-8fcednltlvcj0qy1hxx8p9jda/
Acessado
em 18/11/2019.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Paráfrase
e polissemia: a fluidez nos limites do simbólico. Campinas: Rua, v. 4,
p. 9 a 19, 1998.
Disponível em:
https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rua/article/download/8640626/8177/
PATTI, Ane
Ribeiro; ROMÃO, Lucília Maria Sousa. Sentidos e sujeitos discursivos: filhos e netos do narcotráfico no movimento
do discurso. Ribeirão Preto: USP. 2009.
Disponível em:
https://www.ffclrp.usp.br/imagens_defesas/20_05_2010__10_52_38__43.pdf
Acessado em 15/11/2019.
MEMORIAL da democracia [museu multimídia
dedicado à luta pela democracia no Brasil]. Desvendando os poderes de PC Farias. 2017.
Disponível
em:
http://memorialdademocracia.com.br/card/cpi-desvenda-os-poderes-de-pc-farias
Acessado em 15/11/2019.
COLLOR
GLOBO. Impeachment
de Collor. Memorial Globo. 2013.
Disponível em:
http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/coberturas/impeachment-de-collor/fotos-e-videos.htm
Acessado em 15/11/2019.
BEZERRA, Juliana. Impeachment de Collor. 2018.
Disponível em:
https://www.todamateria.com.br/impeachment-de-collor/
Acessado em 15/11/2019.
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
A LITERATURA POPULAR E A RELAÇÃO DE PODER COM A LITERATURA ERUDITA
Transcrição: Luciana da Costa Bulhões ¹
Pesquisa: Pedro
Costa Pereira ²
Texto e Pesquisa: Ronaldo
Antônio Torres Cruz ³
Professora Doutora: Christiane
Batinga Agra 4
RESUMO
Introdução:
Carregado
de uma essência cultural muito forte, os folhetos eram o principal meio de
comunicação e alfabetização nas pequenas cidades do interior nordestino, onde
eram levados por poetas cantadores, geralmente em lombo de cavalo. Devido à
forte necessidade da leitura, os folhetos se tornaram em instrumento de
multiletramento, pois a alfabetização para muitos nordestinos começou a partir
da leitura desses folhetos informativos ou romanceados. Somente a partir da
década de 1940 é que esse tipo literário ficou conhecido como literatura de
cordel. Objetivo: erigir reflexões
acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos
espaços de feiras, festas e bienais literárias. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa
e caráter exploratório, cujo aporte teórico traz as contribuições de Bagno
(2014), Cândido (2014) e Possenti (2002) e a coleta de dados se deu por meio de
entrevistas semiestruturadas. Resultados:
O cordel sofreu modificações ao longo do tempo, sendo encontrado, muitas vezes,
sem a métrica que sempre lhe foi tradicional. Contudo, também foi o passar dos
anos que lhe trouxe a possibilidade de expandir seus horizontes, ao participar
de bienais e diversas festas literárias, eventos em que se integra à literatura
erudita e encurta a distância entre o fruto da literatura popular e o produto
das elites literárias. Conclusão: O preconceito
sobre o cordel ainda permeia o meio literário, contudo, são notórias as
influências desta literatura nas produções literárias e composições musicais do
meio erudito, ainda que em um ou outro momento se tente invalidar o seu valor
enquanto manifestação artística cultural.
Palavras-chave:
LITERATURA POPULAR. LITERATURA ERUDITA. INFLUÊNCIAS DO CORDEL.
THE POPULAR
LITERATURE AND A RELATIONSHIP OF POWER
WITH A WRITING LITERATURE
Luciana
da Costa Bulhões ¹
Pedro
Costa Pereira ²
Ronaldo
Antônio Torres Cruz ³
Christiane
Batinga Agra 4
ABSTRACT
Introduction: Loaded with a very strong cultural essence, the leaflets were the main means of communication and literacy in the small cities of the northeastern interior, where they were taken by singing poets, usually on horseback. Due to the strong need for reading, the brochures became a multilevel instrument, since literacy for many Northeastern people began from reading these informative or romanticized pamphlets. It was not until the 1940s that this literary type became known as string literature. Objective: to construct reflections about the relation of the cordel literature with the traditional literature in the spaces of fairs, parties and literary biennials. Methodology: This is a bibliographical research, with a qualitative and exploratory approach, whose theoretical contribution brings the contributions of Bagno (2014), Cândido (2014) and Possenti (2002) and data collection was done through semi-structured interviews . Results: The string has undergone modifications over time, being found, many times, without the metric that has always been traditional to it. However, it was also the passing of the years that brought him the possibility of expanding his horizons by participating in biennials and various literary festivals, events in which he integrates with scholarly literature and shortens the distance between the fruit of popular literature and the product of elites literary works. Conclusion: The prejudice about the cord still permeates the literary milieu, however, the influences of this literature in the literary productions and musical compositions of the middle scholar are notorious, although at one time or another it is tried to invalidate its value as a cultural artistic manifestation.
Keywords: POPULAR LITERATURE. ERUDITE LITERATURE. INFLUENCES OF CORDEL.
1 INTRODUÇÃO
Este artigo tem como objetivo erigir reflexões
acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos
espaços de feiras, festas e bienais literárias.
O cordel é uma narrativa poética geralmente
estruturada em estrofes de seis versos (sextilha) e em sete sílabas poéticas,
com rimas obrigatórias no segundo, quarto e sexto versos, impresso em formato
de folheto (CORDA, 2018). Sua origem data dos cantadores medievais e chegou na
Península Ibérica por volta do século XVI e em Portugal recebeu o nome de
“folhas soltas” ou “volantes”. Com a invenção da prensa os folhetos impressos
passaram a ser vendidos pendurados em cordel, vindo daí o seu nome atual
(CORDEL, 2016). Aportou no Brasil nas malas dos colonizadores, se instalando
primeiramente em Salvador, à época, capital da colônia, expandindo-se, depois,
para outros estados do Nordeste, levados pelas vozes dos poetas cantadores e
ceguinhos declamadores, e essa poesia oral não tinha ainda uma identidade
própria, não podendo ser chamada de literatura, pois a oralidade é uma forma de
comunicação e não uma natureza literária. A literatura está sujeita à palavra
impressa (MOISÉS, 2012). Somente no final do século XIX a poesia popular teve
seus primeiros exemplares impressos. Coube a Leandro Gomes de Barros, um poeta
popular, imprimir os primeiros folhetos – como ficou conhecido o cordel – e
comercializá-los, fazendo muito sucesso junto à classe popular (TELMO, 2011).
Carregado de uma essência cultural muito forte,
os folhetos eram o principal meio de comunicação e alfabetização nas pequenas
cidades do interior nordestino, onde eram levados por poetas cantadores,
geralmente em lombo de cavalo. Devido à forte necessidade da leitura, os
folhetos se tornaram em instrumento de multiletramento, pois a alfabetização
para muitos nordestinos começou a partir da leitura desses folhetos
informativos ou romanceados. Somente a partir da década de 1940 é que esse tipo
literário ficou conhecido como literatura de cordel (CORDEL, 2016; TELMO, 2011).
O cordel tem inspirado escritores eruditos e a
compositores da música popular brasileira ao longo do tempo e a “espontaneidade
e graça dessas criações fazem com que o leitor urbano, mais sofisticado, lhes
dedique interesse, despertando ainda a pesquisa e análise de eruditos
universitários” (Drummond, apud DIAS,
2013). João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, escritores
consagrados na nossa literatura, foram influenciados pelo cordel. A Rede Globo
de Televisão produziu e exibiu a novela Saramandaia, em 1976, baseada no cordel
“O romance do pavão misterioso”, um clássico da literatura popular. Compositores
como Chico Buarque, Zé Ramalho, Nando Cordel, Raul Seixas, Ednardo e Alceu
Valença em algum momento se inspiraram nas sextilhas ou nas décimas dos cantadores
(TELMO, 2011).
Para as reflexões acerca da pesquisa, usamos a
premissa da compreensão de que “a poesia é um tipo de linguagem que manifesta o
seu conteúdo à medida que é forma, isto é, no momento que se define a
expressão” (CÂNDIDO, 2014, p. 32).
2 GÊNERO
LITERÁRIO
Os gêneros literários diferem-se dos gêneros
textuais na sua essência pragmática. Enquanto o segundo abrange todas as formas
de textos e são definidos pela função comunicativa, o primeiro limita-se apenas
aos textos relacionados à literatura. Assim, o bilhete, a carta, o telegrama, a
lista de compras, a bula de remédio, o jornal e outros são gêneros textuais; o
romance, o conto, o livro de poemas, a peça teatral, são gêneros literários.
A Literatura de Cordel situa-se, portanto,
dentre os gêneros literários, embora nem sempre tenha sido considerada como
tal. E é como gênero literário que percorre o país como uma das expressões
culturais mais populares do Brasil.
3 FUNDAMENTAÇÃO
TEÓRICA
A literatura é relativamente autônoma e, como
tal, não é meramente a imitação da realidade ou a mimese aristotélica. O
discurso literário não se delimita no tempo e no espaço, cujos enunciados são
criados para produzir sentido no leitor, dentro do seu contexto histórico-social,
como também da sua compreensão de mundo (KOCH, 2015). "A literatura não é
cópia do real, nem puro exercício de linguagem, tampouco mera fantasia que se
asilou dos sentidos do mundo e da história dos homens" (SEF, 1997, p. 37).
A criação literária é um processo subjetivo, cujo objetivo é produzir sensações
no público leitor e pode ou não estar misturado a procedimentos do cotidiano.
Madame Staël, na França, foi quem primeiro formulou e esboçou que a literatura
é também um produto social, exprimindo condições de cada civilização em que
ocorre (CÂNDIDO, 2014).
Enquanto a literatura erudita utiliza-se de
aspectos estéticos em realce da função poética (função social, filosófica e
ideológica), a literatura popular privilegia a função social (CÂNDIDO, 2014) e
o cordel reforça a estética poética na linearidade dos seus versos
metrificados, estrofes e rimas regulares, o que o torna de fácil aceitação por
um público acrítico. O cordel usa a linguagem social, ou seja, a língua em sua situação de uso, o
português não padrão que vem à tona com toda força transformadora (BAGNO, 2014,
grifo nosso), reforçado pela
afirmação de Possenti (2002, p. 55) de
que são “os gramáticos que consultam os escritores para verificar quais são as
regras que eles seguem, e não os escritores que consultam os gramáticos para
saber que regras devem seguir”.
4 METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de
caráter exploratório, cujo aporte teórico traz a contribuição dos estudos de Bagno
(2014), Cândido (2014) e Possenti (2002) e cuja coleta de dados foi
desenvolvida a partir da técnica de entrevistas semiestruturadas, tendo como
ponto de partida uma pesquisa bibliográfica sobre as manifestações cordelistas
no Brasil e suas influências junto às camadas elitizadas.
A pesquisa bibliográfica se baseia em material
previamente elaborado, constituído geralmente de livros e artigos científicos,
mas que não despreza outras fontes secundárias como: teses, dissertações, anais
de congressos e outros eventos científicos, jornais e revistas impressos e
eletrônicos e outras. A pesquisa exploratória, por sua vez, visa ao
esclarecimento de determinados fenômenos, dando uma visão geral do fato
estudado, sendo, por isso, caracterizada como uma primeira parte de uma
pesquisa mais ampla. Costumeiramente, envolve levantamento bibliográfico e
documental, entrevistas não padronizadas e estudos de caso (GIL, 2008).
Sobre a abordagem qualitativa, Oliveira (1999) apud Oliveira (2008, p. 47) esclarece
que esse tipo de técnica proporciona “compreender [...] processos sociais,
oferecer contribuições no processo das mudanças, criação e formação de opiniões
de determinados grupos e interpretação das particularidades dos comportamentos
ou atitudes dos indivíduos”.
Marconi e Lakatos (1999, p. 94) definem
entrevista como um “encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha
informações a respeito de um determinado assunto. ” As entrevistas podem ser
estruturadas, não estruturadas ou semiestruturadas. Para a presente pesquisa,
foram realizadas entrevistas semiestruturadas, por permitirem maior
flexibilidade e adaptação ao contexto e ao entrevistado, mantendo, contudo, a
formalidade das perguntas norteadoras iniciais, pois, como assevera Minayo (2001),
as entrevistas semiestruturadas combinam a liberdade de abordagem do tema pelo
entrevistado e as perguntas previamente elaboradas pelo entrevistador.
As entrevistas foram dirigidas a dois
escritores de cordel e a uma proprietária de loja de artigos da cultura popular
– folhetos, esculturas de madeira e de barro – no Mercado de Artesanato, em
Maceió, e na praia do Francês.
Os
poetas cordelistas responderam a perguntas específicas, relacionadas ao
objetivo da pesquisa. O primeiro, Carlos Silva, respondeu via Messenger, no dia
06 de dezembro de 2018; o segundo, Jorge Calheiros, respondeu em entrevista
gravada em vídeo, na Biblioteca Graciliano Ramos, no dia 21 de dezembro de 2018
e a entrevista com a proprietária da loja de produtos da cultura popular, Rosa
Maria, também gravada em vídeo, ocorreu em um fast-food localizado no Maceió Shopping, no dia 03 de dezembro de
2018.
5 RESULTADOS
E DISCUSSÃO
O roteiro previamente elaborado para a
realização da entrevista contou com um repertório de cinco perguntas (Quadro 1)
dirigidas ao cordelista Carlos Silva.
Quadro 1 – Roteiro da Entrevista Semiestruturada
|
1. Antigamente o cordel era tido como uma literatura do
interior do Nordeste, mais especificamente das pequenas cidades, que era
levada nas vozes dos violeiros ou dos ceguinhos cantadores. O que mudou ao
longo dos anos? |
|
2. O leitor do cordel eletrônico é o mesmo do
folheto? |
|
3. Em artigo intitulado A literatura de cordel, publicado
na Folha de São Paulo em 01/06/1999 Ariano Suassuna dizia que "Quem faz,
e deve fazer, arte popular são os integrantes do 'quarto estado'", em
alusão aos três estados falados na Revolução Francesa: nobreza, clero e povo.
O quarto estado, segundo Suassuna, seria o Brasil não oficial, o Brasil dos
excluídos. Porém o poeta Carlos Pena Filho com "Episódio sinistro de
Virgulino Ferreira", Chico Buarque com "Violeira", aventuraram
na poesia popular. Zé Ramalho gravou um cordel de sua autoria. Isso não
contraria a argumentação de Suassuna de que somente quem vive à margem da
sociedade está capacitado a fazer cultura popular? |
|
4. Qual o público leitor, hoje, da literatura de cordel? |
|
5. Cada vez mais os cordelistas têm ocupado espaço nas
bienais e festas literárias, posando ao lado de escritores famosos da
literatura universal. Como está sendo a aceitação do cordel pelo público
leitor e pelos autores que frequentam essas vitrines literárias? |
Fonte:
Elaborado pelos autores, 2018.
De
acordo com o cordelista Carlos Silva, a literatura de cordel se transformou em
referência ao longo dos anos: “houve um interesse maior por esta modalidade
poética, de tanto se ouvir através dos mais velhos e hoje a literatura de
cordel invadiu sertões e cidades, tornando-se referência, principalmente em
trabalhos acadêmicos. ”
Na visão do cordelista, há diferença entre o
leitor do cordel eletrônico e o leitor do cordel tradicional, em folheto:
Há um
conservadorismo muito notório. O leitor de cordel tradicional, não se rende tanto
a leituras através do computador. Até (por uma questão de acompanhamento da
evolução cibernética) ele procura em alguns sites o que dizem e fazem com o
cordel.
Sobre a afirmativa de Suassuna e a alusão deste
ao quarto estado – o Brasil dos excluídos, Carlos Silva retruca: “a arte está
aberta para todo e qualquer cidadão independente do seu Estado de vivência
social, pois, em todos os meios de classes ou posições, existem poetas
dispostos a abraçar a inspiração que lhe chega de forma criativa. ”
Já com relação ao público leitor contemporâneo
da literatura de cordel, o cordelista afirma que a notoriedade deste tipo de
literatura se fez possível quando determinada emissora exibiu uma novela que
tinha como base norteadora um cordel:
Com a exibição
de uma novela numa determinada emissora, vimos a enxurrada de trabalhos em
escolas serem despontados como forma pedagógica, utilizando a literatura de
cordel, que já estava ali ao alcance e conhecimento de muitos, mas que não
tinha a notória percepção que lhe era devida. Os professores, alunos
debruçaram-se em encantos através dessa POPULARIDADE MIDIÁTICA. Todavia, nos
sertões e em outros estados da nossa federação, e independente dessa exibição
noveleira, já existia um povo fiel à leitura de cordel.
Carlos Silva faz questão de elucidar que
existem públicos que, à parte dos encantos promovidos pela mídia, sempre
reconheceram o valor da literatura de cordel, prestando-lhe a merecida
reverência. Com efeito, o cordelista assevera que a “junção entre o
academicismo e o popular se tornou mais estreita face ao interesse nacional,
pelo despertamento em relação à Literatura de Cordel. ”
A partir da indagação sobre a ocupação de
cordelistas em bienais e festas literárias e a integração com escritores
consagrados, Carlos Silva ressalta que:
Um SONETO nada
mais é que uma modalidade do cordel: para se formar uma estrutura poética de
soneto, utilizamos duas quadras (fazendo uma costura de rimas) e dois tercetos.
Só que há tempos atrás o escritor de nome nacional, não dava tanta importância
para a cultura cordelista, mas isso ganhou novos ares e ambos convivem, hoje,
em grandes exibições literárias, com muita tranquilidade, e isso enriquece
ainda mais a nossa querida literatura de cordel.
É o fruto da composição que se forma da
complementariedade entre a literatura erudita e a literatura popular: enquanto
a primeira trata de aspectos estéticos (que enfatizam as funções social,
filosófica e ideológica), a segunda se ocupa da função social, que encontra na
literatura de cordel uma estética poética na linearidade, como afirma Cândido
(2014).
Seguindo com as entrevistas, o rol das
perguntas feitas ao cordelista Jorge Calheiros segue descrito no Quadro 2.
Quadro 2 - Rol de
perguntas para a entrevista com Jorge Calheiros
|
1.
Qual sua relação com o Cordel? |
|
2.
O cordel de hoje segue a mesma linha de antigamente ou mudou alguma coisa? |
|
3.
Antigamente o cordel era tido como uma literatura menor. Hoje ainda existe o
preconceito? |
|
4.
Cada vez mais os cordelistas têm ocupado espaço nas bienais e festas
literárias, posando ao lado de escritores famosos da literatura universal.
Como está sendo a aceitação do cordel pelo público leitor e pelos autores que
frequentam essas vitrines literárias? |
Fonte:
Elaborado pelos autores, 2018.
Em resposta à primeira indagação, o cordelista Jorge
Calheiros afirmou que sua relação com o cordel data de seus 8-10 anos. À época,
em virtude das dificuldades financeiras de seu pai, não frequentava a escola...
nem ele, nem os seis irmãos. Ele aprendeu a ler e escrever por meio do cordel,
que desde então se transformou em sua paixão.
Quando perguntado se o cordel contemporâneo
segue a mesma linha do cordel tradicional, Jorge afirmou que mudou: “hoje, eu
pego em livros que não existe a métrica. ” Muito provavelmente, esse fenômeno
tem relação com a afirmativa de Possenti (2002, p. 55): “os gramáticos que
consultam os escritores para verificar quais são as regras que eles seguem, e
não os escritores que consultam os gramáticos para saber que regras devem
seguir. ”
A terceira pergunta trata do preconceito relativo
à condição de literatura menor que o cordel carrega consigo. Para o cordelista,
o preconceito existe e é relativo à cultura. Apesar de ter adquirido certa
usabilidade nas escolas, em virtude da visão produzida pela mídia (como se
verificou na entrevista com Carlos Silva), “alguns professores ainda têm a
ignorância de dizer que o cordel atrapalha a escola. ”
Já com relação à ocupação dos espaços nas
bienais e festas literárias, Jorge considera que a literatura de cordel tem
sido bem aceita: “todas as bienais, a literatura tá indo. Os grandes escritores
também dão apoio. Já tenho falado com muitos e eles têm me apoiado. Tem um de
Belo Horizonte que disse: Jorge, queria eu saber escrever cordel, que é uma
história linda e todo mundo gosta do cordel e eu fiquei honrado. ”
A pesquisa ganhou mais uma extraordinária
contribuição quando da entrevista com Rosa Maria, proprietária de loja de
produtos da cultura popular. O roteiro de perguntas segue no Quadro 3.
Quadro 3 – Roteiro da
Entrevista informal com Rosa Maria
|
1.
Como se iniciou o seu gosto pela literatura de cordel? |
|
2.
Esse gosto perdura até hoje? |
|
3.
O que levou a senhora a trazer esse gosto para Maceió e disponibilizar um
espaço no Mercado do Artesanato para a leitura desse tipo de produção
literária? |
|
4.
Os estudantes procuravam sua loja? |
|
5.
E esses estudantes eram mais de escolas públicas ou privadas? |
|
6.
A senhora vendia em média, por mês, quantos cordéis? A que público vendia
mais? E no Francês? |
|
7.
Dos cordelistas novos de Alagoas, tem algum que se destaque? |
Fonte:
Elaborado pelos autores, 2018.
A senhora Rosa Maria do Nascimento Silva é
natural do sertão pernambucano e começou a amar o cordel com os alunos de sua
mãe, que chegou a alfabetizar muitas crianças que, maravilhadas pela
possibilidade de ler, compravam diversos cordéis e se punham a ler debaixo de
árvores. As histórias lidas enchiam o coração de Rosa Maria: “tudo que eles
liam eu vivenciava na minha alma... eram histórias muito bonitas...”
Vindo para Maceió, a amante do cordel trouxe
esse gosto para a localidade do Mercado do Artesanato, onde tomou conhecimento
sobre um antigo vendedor que havia perdido o interesse em disseminar essa
literatura. Instigada por isso, montou um espaço apropriado, com mesinhas
tradicionais, como as que usara em Pernambuco, para a leitura cordelista e
passou a comercializar os cordéis. Sua intenção era divulgar a literatura de
cordel, por achá-la fascinante e rica, uma vez que traduzia “a alma pura do
nordestino, do homem simples, que ele bota para fora o que ele sente, sem se
preocupar com rimas, muitas vezes, apenas em expressar sentimentos. ”
Segundo Rosa Maria, os estudantes eram assíduos
frequentadores e compradores de cordéis em sua loja no Mercado do Artesanato.
Oriundos basicamente de escolas públicas, eram estudantes de escolas e de
universidades que “levados pelas solicitações dos mestres” buscavam o lugar
para fazer trabalhos acadêmicos (nos quais ela ficava feliz em ajudar, pois
emprestava-lhes o conhecimento e experiência de que era possuidora).
A microempresária chegava a vender, em média,
300 exemplares de cordéis, por mês. E seus compradores eram constituídos, em
sua maioria, por estudantes. Segundo Rosa, ainda havia muito preconceito com
relação à literatura de cordel. Esse preconceito era local, pois, ao
comercializar seus cordéis no Francês, os turistas enalteciam e se maravilhavam
com esse tipo de escrita literária e levavam os exemplares para seus locais de origem
com muito orgulho da aquisição.
Quando indagada sobre algum cordelista
contemporâneo alagoano que tenha alcançado destaque no cenário local e, até
mesmo, regional e nacional, Rosa citou o nome de Jorge Calheiros, mas lamentou
o fato de que os novos cordelistas estão fugindo das rimas autênticas do
cordel: “é preciso ter aquele traço do cordel do passado. ”
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo teve como objetivo erigir reflexões
acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos
espaços de feiras, festas e bienais literárias. A partir das entrevistas e do
confronto com os teóricos que embasaram este estudo foi possível verificar que
ainda há grande preconceito a respeito da literatura de cordel, ainda dita
literatura menor. Entretanto, com a abertura dos espaços midiáticos e das
bienais e outros eventos literários, a visão sobre este tipo de produção
literária vem mudando e conseguindo o respeito de muitos escritores da chamada
literatura erudita, o que promove grandes reflexões acerca da relação de poder
entre tais literaturas, como se propôs no objetivo desta pesquisa. Ainda que em
um ou outro momento se tente invalidar o valor do cordel enquanto manifestação
artística cultural, esse tipo de literatura se afirma cada dia mais, através
dos usos que se vem fazendo dela no meio erudito, o que a torna notoriamente
influente e marca sua ascensão às camadas mais elitizadas.
REFERÊNCIAS
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Contexto, 2014.
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teoria e história literária. 13. ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2014.
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em: <http://acorda.net.br/
estrutura-do-cordelprojetoacorda/>.
Acesso em: 29 dez. 2018.
CORDEL, Izaías. O que é literatura de cordel. 2016. (15m53s).
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=yApw5arCI4c>. Acesso em:
28 dez. 2018.
DIAS, L. Literatura de cordel. 2013. Disponível
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literatura-de-cordel/>.
Acesso em: 29 dez. 2018.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social.
6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
KOCH, I. G. V; ELIAS,
V. M. Ler e compreender: os sentidos
do texto. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2015.
MARCONI,
Maria de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Técnicas
de pesquisa. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999.
MINAYO,
Maria Cecília de Souza (Org.). Pesquisa social:
teoria, método e criatividade. 18. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
MOISÉS, Massud. A criação literária: poesia e prosa.
São Paulo: Cultrix, 2012.
OLIVEIRA,
P. M. P. de et al. Literatura de cordel como estratégia educativa para
prevenção da dengue. Texto contexto - Enfermagem, Florianópolis, v.
20, n. 4, p. 766-773, dez. 2011. Disponível em:
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?script=sci_arttext&pid=S010407072011000400016&lng=en&nrm=iso>.
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POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola.
São Paulo: Mercado de Letras, 2002.
SECRETARIA DE EDUCAÇÃO
FUNDAMENTAL. Parâmetros curriculares
nacionais: língua portuguesa. Brasília: MEC. 1997.
TELMO, Junior. Literatura de cordel globo rural. 2011.
Disponível em: <https://
www.youtube.com/watch?v=7DosjK6GSUQ>.
Acesso em: 26 dez. 2018.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2023
Tempos modernos: a Carta de Pero Vaz de Caminha pelo WhatsApp
E se Pero Vaz de Caminha escrevesse a Carta do Achamento pelo WhatsApp? Este vídeo é um trabalho de sociolinguística recontando a História do Achamento do Brasil pelas redes sociais. Texto: Tom Torres
Grupo:
Tom Torres Bruno Omena Pedro Costa Professora Cleide Calheiros
segunda-feira, 16 de janeiro de 2023
O OLHAR DO LIVRO DIDÁTICO PARA A SOCIOLINGUÍSTICA E A GRAMÁTICA
Benito Carlos Gomes F. do Nascimento*
Pedro Costa Pereira*
Ronaldo Antonio Torres Cruz*
Roseane Elias dos Santos*
1. RESUMO
O
presente artigo é resultado de uma pesquisa bibliográfica de fontes específicas
da área de sociolinguística e de projetos integradores IV, e tem como objetivo
refletir e discutir o contributo que as autoras
Roberta Hernandes Alves e Vima Lia Martim oferecem para a compreensão da
sociolinguística e da gramática do livro didático do 1º ano do Ensino
Médio, Veredas
da Palavra. Elas dedicam um capítulo
inteiro explorando a questão das variações linguísticas e do preconceito
linguístico, o que nos permitiu dialogar com os autores Marcos Bagno, Sírio Possenti
e Lívia Suassuna e trazer à luz da reflexão a abordagem dos fenômenos
linguísticos e os significados que assumem em diferentes contextos regionais e
sociais. Observamos que o assunto abordado no livro didático não foi suficiente
para trabalhar a variação linguística de maneira que alunos e professores
tivessem um nível razoável de compreensão.
Palavras-chave: Sociolinguística. Projetos integradores
IV. Gramática. Livro didático.
2. INTRODUÇÃO
Monteiro Lobato,
no início da terceira década do século vinte, escreveu que “A língua é um meio
de expressão. Modifica-se sempre no sentido de aumentar o poder da expressão. A
variedade de coisas novas que tivemos necessidade de expressar, num mundo novo
como o Brasil, forçou e força no povo um surto copiosíssimo de vocábulos”
(LOBATO, 1922, p. 184). Adepto do movimento modernista que se insurgiu contra a
ditadura da gramática, Lobato chamava a atenção para a miscigenação presente na
nossa língua desde o dia em que a esquadra de Cabral aportou no sul da Bahia.
Quase cem anos
depois que Lobato escreveu esse artigo, apesar da evolução da língua(gem) em
ritmo acelerado, apesar da revolução causada pela nanotecnologia, a nossa
gramática normativa continua atrelada às âncoras dos navios dos colonizadores,
tecendo loas à nossa unidade gramatical. A linguística aplicada há décadas que
vem investigando a língua como fenômeno heterogêneo e variável, porém “numa
comparação com a produção bibliográfica sobre linguística textual, letramento,
leitura, escrita, gêneros textuais, análise do discurso etc., a gente logo
percebe que são poucos os títulos que abordam especificamente a variação
linguística” (BAGNO, 2014a, p. 29).
Fazendo um passeio
na história recente da educação no Brasil, veremos que até a década de 1960 as
escolas públicas eram em número reduzido e se concentravam nas cidades, cujas
vagas eram destinadas, em sua maioria, aos estudantes oriundos da classe média.
O desenvolvimento industrial em ritmo acelerado, a partir de meados dos anos
1960, aumentou o êxodo rural, causando o crescimento desordenado dos grandes
centros urbanos e graves consequências sociais. Era preciso repensar a
educação, então foram construídas novas escolas para acolher os filhos dos
deserdados sociais e isso resultou no desprestígio total do ensino público. A
precariedade tornou-se visível: salas superlotadas, prédios mal construídos,
material de uso didático insuficiente e professores mal pagos e mal formados.
Esse é o perfil da nova escola construída a partir da tomada de poder pelos
militares. A isso, chamaram de “democratização” do ensino no Brasil, o aumento
quantitativo em detrimento do qualitativo. (BAGNO, 2014a, p. 30, 31).
Os frequentadores
da escola pública antes da democratização eram, em sua maioria, falantes das
variedades linguísticas urbanas, usuários de uma prática mais formal da
linguagem. Os professores eram oriundos da classe média que tinham o hábito da
leitura e conhecimento de uma língua estrangeira, sobretudo o francês,
considerada uma língua de prestígio na época. E essa foi a realidade encontrada
pelos alunos egressos da classe pobre ou miserável. Os materiais didáticos eram
insuficientes ou conflitantes com a diversificação sociolinguística,
sociocultural e socioeconômica. A formação docente também não estava preparada
para lidar com os novos desafios. A variação linguística, em vez de ser tratada
como “a língua em seu estado permanente de transformação, de fluidez e de
instabilidade” (BAGNO, 2014a, p. 38), era tachada como erro gramatical do falante. Gerações depois da “democratização” do
ensino, aqueles falantes de variedades desprestigiadas passaram a ocupar a
carreira de docente e com isso as construções gramaticais consideradas erradas
pela norma-padrão também invadiram as salas de aula na fala dos professores, o
que levou a linguística aplicada a concentrar suas pesquisas nas variedades
linguísticas. (BAGNOa, 2014, p. 32 e
33).
A atividade
linguística é aquela praticada pelos falantes nas suas comunidades, cuja
finalidade é servir como instrumento de interação social. Sendo usuário dessa
prática linguística, o estudante leva-a para a sala de aula e geralmente sofre
o preconceito e os professores se sentem despreparados para lidar com a
situação, pois a sociolinguística é praticamente ignorada pelos autores dos
livros didáticos, que privilegiam a norma-culta em detrimento da variação
linguística. “A escrita, a literatura, e a escola são instituições eminentemente
sociais, são invenções culturais, criações artificiais e muito recentes na
história da humanidade” (BAGNO, 2014a, p. 35), portanto, são fatores instáveis
e a língua está sempre se reinventando, e a padronização sem exceção da regra é
uma idealização em descompasso com a evolução linguística.
Nos PCN de 1997, o
Ministério da Educação finalmente reconheceu as variedades dialetais dos
falantes brasileiros e recomenda que o preconceito linguístico seja combatido
na escola (BAGNO, 2014, p. 27). Isso foi um grande passo na mudança da
concepção de ensino, porém é preciso vencer “a resistência das pessoas muito
apegadas às concepções antigas e a falta de formação adequada dos professores
[...]” (BAGNO, 2014a, p. 28). A consequência disso é que a variação linguística
não é tratada pelos docentes conforme determinada nos PCN, principalmente por
falta de um aporte teórico razoável nos livros didáticos de língua portuguesa.
Diante do exposto,
o presente artigo se propõe a analisar como o livro didático apresenta as
variações linguísticas e a gramática internalizada, descrevendo os fenômenos
linguísticos nos campos morfossintáticos e léxico-semânticos, ou seja, como a
palavra se expressa e os significados que assume em diferentes contextos
regionais.
3. DIALOGANDO COM A TEORIA
Trazemos alguns conceitos
importantes para a compreensão das variações linguísticas e gramaticais
teorizadas por Marcos Bagno, Sírio Possenti e Lívia Suassuna na análise do LD Veredas da palavra, considerando que
apenas esse recorte teórico não será suficiente para a compreensão da
complexidade dessa abordagem temática.
Iniciaremos abordando a
heterogeneidade das línguas que, na concepção dos sociolinguistas, é múltipla,
variável, instável e está sempre em desconstrução e reconstrução. Ao contrário
da norma-padrão, que é idealizada como um produto homogêneo, a língua é um meio
de interação social e em constante processo de mudanças (BAGNO, 2014a, p.36).
A colonização portuguesa usou
a violência como ferramenta de dominação cultural, principalmente a
língua(gem). Mas o português que ficou no litoral ou que adentrou o interior
perdeu sua originalidade na diversidade linguística praticada pelos índios,
pelos negros vindos da África e por outros invasores, tais como, franceses e
holandeses. A lição que podemos tirar dessa miscigenação linguística é que não
existem línguas estáveis. A linguagem é dinâmica e está sempre em processo de
mutação. O português, que era latim, é um exemplo desse processo mutante. A
carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal descrevendo o descobrimento usa
uma linguagem diferenciada da linguagem atual. Por sua vez, o latim não foi a
língua falada no advento do Pecado Original. Resultou das mutações de outras
línguas e também se modificou tanto que dela nasceram outras línguas, a exemplo
do francês, italiano, espanhol, além do próprio português (POSSENTI, 2002, p.
37).
“A análise linguística é uma
prática mais ampla que envolve a gramática”. Os
assuntos envolvendo o dígrafo ou às estruturas da língua ou à ortografia são questões
consideradas gramaticais, ao passo que a compreensão de um texto é uma questão
linguística (SUASSUNA, 2012, p. 14). Em ambos os casos, “o fundamental no
estudo da gramática/análise linguística é contemplar a variedade de recursos
expressivos postos à disposição do falante/escritor para a construção de
sentido” (SUASSUNA, 2012, p. 15).
Na análise
linguística há três distinções de atividades linguísticas: atividade
linguística, epilinguística e metalinguística, porém nos ateremos apenas à
atividade linguística, que é a atividade de comunicação que o falante pratica
na sua comunidade e o LD deve abordar em condições adequadas de maneira que
promova a interação social do aluno (SUASSUNA, 2012, p. 16).
4. METODOLOGIA
Este trabalho se configura e
se caracteriza como uma pesquisa de natureza qualitativa, que tem como objetivo
compreender como se manifesta a abordagem das variações linguísticas a partir
das observações subjetivas das narrativas escritas e suas particularidades no
livro didático (LD) cuja materialização das concepções teóricas se concretizou
na análise do corpus, do LD, Veredas da
Palavra, das autoras Roberta Hernandes
Alves e Vima Lia Martim, editora Ática. Da obra, selecionamos o LD do primeiro
ano Ensino Médio que aborda esses dois fenômenos linguísticos. O livro didático
está organizado em cinco grandes unidades estruturadas em vinte capítulos.
Analisamos o
capítulo 15 que está organizado em tópicos, cujas abordagens estão elencadas da
seguinte forma: a) Variedades linguísticas; b) Variedades linguísticas e
competência comunicativa; c) Norma-padrão e normas urbanas de prestígio; d) As
perspectivas da linguística e da gramática normativa; e) Gíria: uma forma de
construção da identidade linguística; f) Preconceito linguístico.
Trazemos à análise
os tópicos “a”, “b”, “c”, “d” e “e”, ou seja, os que estão vinculados às
variações linguísticas e estabelecemos relações desses tópicos com os
enunciados dos teóricos Bagno, Possenti, Suassuna, no que se referem à sociolinguística e à gramática.
O procedimento metodológico teve seu início com a análise
de elementos obtidos a partir da pesquisa bibliográfica. Depois desse processo,
houve o diálogo entre a literatura acumulada e as informações adquiridas por
meio da observação do material selecionado, com vistas a análises abarcantes.
Por fim, depois das discussões, vieram as considerações finais.
5. PONDERANDO O TEMA PROPOSTO NO CAPÍTULO 15
As autoras abrem o
capítulo 15 (p. 256) com o texto intitulado de Mapa da tangerina, extraído do livro de crônicas Percatempo, tudo que faço quando não há o
que fazer, de Gregório Duvivier.
Esse texto traz as
palavras tangerina, poncã, mexerica, bergamota
associadas ao mapa das regiões brasileiras, e transmite a ideia de que são
variantes regionais, ou seja, vários nomes para uma mesma fruta, a tangerina. As
autoras do LD também entenderam o Mapa
da tangerina dessa mesma forma e trazem duas questões relacionadas às
variações que a língua(gem) sofre de região para região. Na primeira, elas
direcionam o olhar do aluno para as diferentes formas de se falar uma mesma
palavra em lugares distintos. Na segunda, perguntam sobre os conhecimentos dos estudantes
acerca da variação regional.
Entendemos que esse exemplo específico do LD
não se aplica à variante regional, uma vez que não se trata de dizer diferente
a mesma coisa, mas de se nomear diferente as espécies da fruta tangerina. Nossos argumentos são
fortalecidos no enunciado de Bagno: “a definição mais simples de variante é a
de ‘cada uma das formas diferentes de se dizer a mesma coisa”’ (BAGNO, 2014a,
p. 50). Um exemplo de variante regional é a mandioca, da família Manihot
palmata, diferente da Manihot esculenta que só serve para fazer farinha (HOUAISS, 2010), em parte do Nordeste é conhecida como macaxeira, na Bahia e em outros estados do Sudeste, aipim, e na Região Sul, mandioquinha. Assim, temos vários nomes
para a mesma coisa, o que podemos dizer, nesse caso, que há uma variação dialetal,
“um termo usado há séculos, desde a Grécia antiga, para designar o modo
característico de uso da língua num determinado lugar, região, província etc.”
(BAGNO, 2014a, p. 48). A tangerina em
questão tem o nome científico Citrus
reticulat, a mexerica Citrus
deliciosa, a bergamota Citrus
aurantium e a poncã, Citrus reticulata, uma variedade de
tangerina grande e de casca frouxa, originária do Japão (HOUAISS, 2010). Essa
última é vendida nos supermercados como laranja poncã; as demais, podemos encontrá-las
expostas na mesma gôndola de frutas dos supermercados com os seus respectivos
nomes, o que nos leva à conclusão de que, no mapa da variedade regional, de Duvivier, existe apenas variedade da espécie, e
não, variação regional, o que se configura um equívoco do autor, que faz uma
análise sociolinguística sem se aprofundar em uma análise básica da relação
língua sociedade cujas autoras do LD não ponderaram que “ouvir o comentário de
um intelectual ou de um jogador de futebol sobre a questão [da língua] é
exatamente a mesma coisa” (POSSENTI, Apud BAGNO, 2014a, p. 21).
A segunda questão,
“Você conhece outros termos que caracterizam variação regional?”, ainda contida
na primeira atividade, deveria ser formulada, portanto, após o final do
capítulo, depois que o aluno tivesse uma compreensão mais abarcante do que se
trata a variedade regional. Isso porque ainda surgem outras questões sobre o
conteúdo em estudo.
Dando continuidade
à organização didático-pedagógica da unidade, no tópico Variedades linguísticas (p.257), há uma tirinha, que aparece na
sequência, em que o viking Hagar é
questionado ameaçadoramente por Helga, sua esposa, que quer saber o motivo de
sua ausência prolongada de casa. O diálogo presente na tirinha: (primeiro
quadrinho: Helga) “Tá legal, espertinho!
Onde é que você esteve?” (segundo quadrinho: Helga) “E lembre-se: se você disser uma mentira os seus chifres cairão.” (primeiro
quadrinho: Hagar) “Tudo bem, eu vou
contar... Eu tou atrasado porque ajudei uma velhinha a atravessar a rua...”
(primeiro quadrinho: Hagar) “... E ela me
deu um anel mágico que me levou a um tesouro, mas bandidos o roubaram e os
persegui até a Etiópia onde um dragão...” (O melhor de Hagar, o Horrível,
de Dick Browne). As autoras registram que “isso se dá porque eles têm uma
relação de intimidade, o que permite a ela fazer um uso linguístico mais
espontâneo, menos monitorado. Já o Hagar, que se encontra em uma situação
desconfortável, de maior tensão psicológica, faz uso de um registro mais formal
da língua” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 257). Continuam: “Sentindo-se pressionado pela
mulher, ele utiliza uma fórmula de linguagem mais monitorada e formal para
convencê-la a acreditar em sua fantasiosa história” (ALVES; MARTIN, 2017, p.
257). As ideias trazidas por elas são corroboradas pelas de Bagno, ao dizer que
uma situação “pode ser de maior ou menor formalidade, de maior ou menor tensão
psicológica, de maior ou menor pressão da parte do(s) interlocutor(es) e do
ambiente, de maior ou menor insegurança ou autoconfiança, de maior ou menor
intimidade com a tarefa comunicativa que temos a desempenhar etc.” (BAGNO. 2014a,
p. 45). Isso ocorre porque somos levados a refletir antes de falar nos momentos
de tensão, para dar mais credibilidade às palavras e evitarmos cair em
contradições.
Considerando-se
que até o momento houve uma tímida orientação no sentido de conduzir o aluno no
conceito de variedade linguística, seria mais interessante uma abordagem acerca
da diferença entre a linguagem “mais formal” e a “menos monitorada”, deixando o
aluno mais confortável para analisar o diálogo da tirinha em questão.
Nesse mesmo tópico,
Variedades linguísticas (p. 258), as
autoras explicam que o uso da língua está subordinado a determinado contexto e
trazem dois exemplos de construções linguísticas de maior ou menor prestígio. O
primeiro, “Os senhores queiram, por gentileza, entregar-me os documentos
solicitados” e o segundo, “Vamo me dando essa papelada, gente, por favor”, são
reconhecidos como formas legítimas do uso da língua, caracterizando, assim, a
variação linguística, que é o dizer de formas diferentes a mesma coisa. (ALVES;
MARTIN, 2017, p. 258). Informam que essas variações estão presentes em todos os
níveis da língua, e dão exemplos e explicações do uso da fonética/fonologia,
morfologia, sintaxe, semântica, lexical e estilístico-pragmática.
O tópico Variedades linguísticas e competências
comunicativa (p. 259), faz referências à adequação da competência
comunicativa às situações de uso. Traz uma charge em que mostra dois surfistas
à beira-mar, observando as ondas. O primeiro personagem, trajando smoking e segurando uma prancha de
surfe, é a caracterização da inadequação à situação, reforçada pela falta de
monitoramento linguístico: “Veja que belos movimentos elípticos fazem essas
ondas, meu caro amigo! Pegá-las-emos nesse instante ou mais tardiamente?” Ao
seu lado, o amigo que é surfista, faz cara de poucos amigos. Deste modo,
entende-se que a competência comunicativa é o cuidado que o falante deve ter em
determinada situação de comunicação. (ALVES; MARTIN, 2017, p. 260).
No tópico seguinte,
Norma-padrão e normas urbanas de
prestígio (ALVES; MARTIN, 2017, p. 260), elas afirmam que a variação
linguística é própria da língua e, como tal, “é tão somente uma propriedade
natural das línguas” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 260). Apresentam o hipérbato “Da
minha infância não lembro nada” e “Não lembro nada da minha infância” como
exemplo da variação sintática da língua, passando da análise linguística para a
análise gramatical, pois, para Suassuna, ao se analisar um texto pelas
convenções normativas, faz-se uma análise gramatical; ao se analisar pelo
discurso, nesse caso é uma reflexão linguística (SUASSUNA, 2012, p. 14).
Seguindo o
entendimento de que a língua é um produto sociocultural, dinâmica e heterogênea,
as autoras reafirmam que a variação linguística “não é um defeito, não é um
problema. É tão somente uma propriedade natural das línguas” (ALVES; MARTIN,
2017, p. 260) e fazem uma breve exposição sobre a norma padrão, dizendo que é o
produto da relação língua e sociedade, sendo a língua marcada por uma relação
de poder, caracterizada por “[...] um conjunto de normas e regras gramaticais
que devem ser seguidas pelo usuário indistintamente” (ALVES; MARTIN, 2017, p.
261), e que, por não representar o uso real da língua, não admite variação.
Sobre a norma
urbana de prestígio elas dizem que é aquela “usada por grupos de falantes
urbanos, mais escolarizados e de maior nível socioeconômico” (ALVES; MARTIN,
2017, p. 261) e ilustram a temática desse tópico com um quadro comparativo das
variedades linguísticas e a norma-padrão, conforme paradigma, informações e
atividades abaixo:
“Para compreender
melhor esses contextos, observe o quadro a seguir, comparando suas colunas”:
|
Coluna 1 |
Coluna 2 |
Coluna 3 |
|||
|
Variedades
menos prestigiadas |
Variedades mais prestigiadas |
Norma-padrão |
|||
|
eu |
falo |
eu |
falo |
eu |
falo |
|
você [tu] ele a gente nós (vo)cês eles |
fala |
você ele a gente nós vocês eles |
Fala falamos falam |
tu ele nós vós eles |
falas |
|
fala |
|||||
|
falamos |
|||||
|
falais |
|||||
|
falam |
|||||
“Que diferença você pode notar entre as colunas? Como se
diferencia a flexão dos verbos em cada uma delas? Que pronomes pessoais se
mantêm e quais novos surgem?” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 261).
Em seis linhas,
as autoras explicam que as colunas 1 e 2 são duas variantes da língua, enquanto
a coluna 3 é a norma padrão e “indica como as pessoas deveriam usar a língua,
de acordo com a prescrição da gramática normativa” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 261). Em seguida apresentam duas questões reproduzidas abaixo:
“Você conhece alguém que atualmente se comunique dirigindo-se aos
interlocutores pelo pronome ‘vós’?” e “Você e seus colegas usam sempre a forma
‘nós’ quando estão conversando?” (ALVES; MARTIN,
2017, p. 261).
Trazer o modelo
idealizado de língua nessas duas perguntas é uma forma engenhosa e dissimulada
de preconceito linguístico, além de que não proporcionam nenhuma reflexão sobre
a temática em discussão, pois, mesmo compreendendo a língua(gem) como um
produto social, heterogêneo e ordenado. “[...] as perguntas não podem tratar as
diferentes abordagens da língua e da linguagem fora de seus contextos teóricos”
(BAGNO, 2014a, p. 15). Apesar das perguntas propostas requererem respostas
objetivas, que podem ser respondidas apenas com um “sim” ou um “não”, o pronome
pessoal vós e a forma verbal
correspondente entraram em desuso, sendo substituídas por vocês falam (POSSENTI,
2002, p. 66).
Ainda sobre a atividade acima, compreendemos que “falar é
construir um texto, num dado momento, num determinado lugar, dentro de um
contexto de fala definido, visando determinado efeito” (BAGNO, 2002, p. 98), o
que denota que seria mais produtivo solicitar aos alunos a informação de quando
utilizam os pronomes “nós” e “vós” em situações reais de comunicação, ampliando
sua competência comunicativa e proporcionando sua aproximação das regras
gramaticais. Ademais, no exemplo da conjugação verbal, faltou a análise sobre a
variação morfológica, tão importante na compreensão desse fenômeno linguístico.
Em seu livro Nada na língua é por acaso
(2014), Bagno traz um paradigma semelhante da conjugação verbal no tópico Um roteiro para analisar os livros
didáticos, fazendo a reflexão de
que “essa tabela já representa uma simplificação do fenômeno, porque existem
variedades estigmatizadas em que aparece o pronome tu com as marcas da
conjugação de pessoa da conjugação clássica (TU FALAS, TU FALASTE, como no
Maranhão e no Pará, mesmo no uso de pessoas não escolarizadas) variedades
prestigiadas em que aparece o pronome tu sem as marcas da conjugação clássica (TU
FALA, TU FALÔ, como no Rio grande do Sul, mesmo no uso de pessoas altamente escolarizadas – variedades
estigmatizadas em que o verbo na 1ª pessoa do plural tem morfologia própria –
NÓS FALAMO, presente, NÓS FALEMO, passado) ou em que o pronome A GENTE é
seguido dos verbos com essas mesmas
marcas (A GENTE FALAMO)” (BAGNO, 2014a,
p. 133).
No tópico As perspectivas da linguística e da gramática
normativa, elas apresentaram conceitos contrários entre gramáticos
normativos e linguísticos aplicados sobre o uso da língua(gem). Os primeiros
consideram como erros a variação linguística, enquanto os segundos defendem a
variação como possíveis usos da língua.
Por último, o
tópico Gíria: uma forma de construção da
identidade linguística, conceitua gíria como “uma variedade da língua
criada por determinado grupo social, com o objetivo de reforçar sua
identidade”. (ALVES; MARTIN, 2017, p. 264). As autoras fazem
conexão da gíria com o jargão, este, uma “gíria” usada em determinadas
profissões que tem muito a ver com suas rotinas profissionais. Os dois, segundo
o LD, são variantes linguísticas excludentes, vez que só são usados entre
pessoas de um mesmo grupo social ou profissional e não são entendidos por
aqueles que não fazem parte dessas comunidades.
Na
página seguinte (p. 265), para trabalhar com esse recorte, trazem como
atividade a letra da música Vaca estrela
e boi Fubá, do poeta Patativa do Assaré.
“Seu dotô me dê licença pra minha
história contar / Hoje eu tô na terra estranha, e bem triste o meu penar / Mas
já fui muito feliz vivendo no meu lugar / Eu tinha cavalo bom e gostava de
campear / E todo dia aboiava na porteira do curral. [...]”.
Observamos que as
autoras trouxeram a poesia inserida nessa atividade descontextualizada da
temática gíria (o que dá a entender, a princípio, de que se relacionaria com
esse tema). No entanto, o poema manifesta-se em variante regional, causando um
conflito de compreensão entre o que é gíria e o que é regionalismo, mesmo
porque as atividades seguintes estão relacionadas à gíria, exceção para uma
fotografia, na página 267, expondo diversos itens alimentícios (grãos e farinhas
distintas, de difícil identificação) e uma placa de madeira entre eles com a
seguinte informação: “Temos carimã”. Abaixo da fotografia, a seguinte pergunta:
“Você conhece o sentido do termo ‘carimã’? Em caso negativo, levante hipóteses
sobre o significado dessa palavra, levando em conta o contexto em que se
encontra a placa”.
Mais uma vez,
caracteriza-se como uma situação de conflito nas temáticas “gíria” e outras
variantes da linguagem, pois, a exemplo do poema de Patativa do Assaré, esta atividade
está na sequência do tema gíria. Existem
duas possibilidades de respostas no questionamento efetuado: “sim” ou “não”.
Caso a resposta seja afirmativa, não haverá ligação com os temas estudados até
aqui e a pergunta encerrar-se-á com um simples “sim”, sem provocar nenhuma
reflexão ao aluno. Em caso de resposta negativa, ele terá de pesquisar em
outras fontes o significado da palavra “carimã” e, ao encontrá-la, constatará
que se trata de uma variação semântica, cujo verbete, segundo o dicionário
Houaiss: “carimã: 1 farinha de
mandioca seca e fina 2 Rubrica:
culinária. bolo feito de farinha de mandioca 3 Rubrica: culinária. bolo feito com massa azeda de mandioca mole,
seco ao sol 4 Regionalismo: Pará.
espécie de mingau de farinha de mandioca dissolvida em água e açucarada que se
dá às crianças 5 praga que ataca
os algodoeiros”. (HOUAISS, 2010).
No contexto em que
a placa se apresenta, observa-se a existência de alguns produtos alimentícios,
entre eles, três tipos de farinha, sem nenhuma especificação, donde se conclui
que a palavra carimã se refere ao item 1 do dicionário Houaiss, ou seja,
trata-se da “farinha de mandioca seca e fina”, portanto, por ser carimã uma palavra que exige um contexto
para formar sentido, e as gírias são variedades linguísticas usadas em
determinado grupo social, essa
atividade, em vez de causar reflexão,
poderá causar confusão no estudante, pois as questões seguintes se relacionam
ao tópico gíria.
As demais
atividades seguem a linha de provas de vestibulares e concursos. São todas
questões objetivas requerendo apenas uma resposta como correta, de uma
sequência de cinco alternativas.
6. COMENTÁRIOS FINAIS
Finalizando a
nossa análise do livro didático Veredas
da Palavra, das autoras Roberta Hernandes Alves e Vima Lia Martim, podemos
afirmar que o referido livro trata a variação linguística de maneira
superficial e em alguns momentos de forma equivocada, não se aprofundando no
conteúdo e ignorando a pluralidade de línguas existentes no país, como também
ficaram de fora conceitos importantes para a compreensão da língua(gem) como
fator social a exemplo da assimilação, que é a “força que tenta fazer com que
dois sons diferentes, mas com algum parentesco, se tornem iguais, semelhantes”
(BAGNO, 2014b, p. 77) como é o caso de se dizer falano em vez de falando e
a abordagem sobre “a eliminação das marcas do plural redundantes” (BAGNO,
2014b, p. 52), que é a concordância de número.
O referido livro
didático limita-se apenas a interpretações errôneas de alguns textos, como
também fazem uma brevíssima análise das variedades prestigiadas,
evidenciando-se o desinteresse em levar o aluno a uma análise mais profunda da
temática proposta e essa superficialidade na abordagem da sociolinguística talvez
seja apenas “para cumprir as exigências do Ministério da Educação e poder
entrar na lista das obras que vão ser compradas e distribuídas” (BAGNO, 2014a,
p.135).
REFERÊNCIAS
ALVES, Roberta Hernandes; MARTIN, Vima
Lia. Veredas da palavra, manual do
professor, vol.1, p. 256 a 268. São Paulo: Ática. 2017.
BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma
pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parabólica. 2014a.
___________. A Língua de Eulália: novela
linguística. São Paulo: Contexto. 2014b.
___________. Preconceito linguístico: o
que é, como se faz. São Paulo: Loyola. 1999.
HOUAISS. Dicionário eletrônico.
2010.
POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar
gramática na escola. São Paulo: Mercado de Letras. 1996.
SUASSUNA, Lívia. Ensino de análise linguística:
situando a discussão. In: SILVA,
Alexsandro; PESSOA, Ana Cláudia, LIMA, Ana (Org.). Ensino de gramática: reflexões sobre a língua portuguesa na escola,
p. 11 a 27. Belo Horizonte: Autêntica. 2012.
Site:
LOBATO, Monteiro. A onda verde, p.
183/184. São Paulo: Monteiro Lobato. 1922. Baixado de: https://pt.scribd.com/doc/32173526/A-Onda-Verde-Monteiro-Lobato
Visitado em 15/07/2018.
