quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A LITERATURA POPULAR E A RELAÇÃO DE PODER COM A LITERATURA ERUDITA

 

 Transcrição: Luciana da Costa Bulhões ¹

Pesquisa: Pedro Costa Pereira ²

Texto e Pesquisa: Ronaldo Antônio Torres Cruz ³

Professora Doutora: Christiane Batinga Agra 4

 




RESUMO

 

Introdução: Carregado de uma essência cultural muito forte, os folhetos eram o principal meio de comunicação e alfabetização nas pequenas cidades do interior nordestino, onde eram levados por poetas cantadores, geralmente em lombo de cavalo. Devido à forte necessidade da leitura, os folhetos se tornaram em instrumento de multiletramento, pois a alfabetização para muitos nordestinos começou a partir da leitura desses folhetos informativos ou romanceados. Somente a partir da década de 1940 é que esse tipo literário ficou conhecido como literatura de cordel. Objetivo: erigir reflexões acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos espaços de feiras, festas e bienais literárias. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório, cujo aporte teórico traz as contribuições de Bagno (2014), Cândido (2014) e Possenti (2002) e a coleta de dados se deu por meio de entrevistas semiestruturadas. Resultados: O cordel sofreu modificações ao longo do tempo, sendo encontrado, muitas vezes, sem a métrica que sempre lhe foi tradicional. Contudo, também foi o passar dos anos que lhe trouxe a possibilidade de expandir seus horizontes, ao participar de bienais e diversas festas literárias, eventos em que se integra à literatura erudita e encurta a distância entre o fruto da literatura popular e o produto das elites literárias. Conclusão: O preconceito sobre o cordel ainda permeia o meio literário, contudo, são notórias as influências desta literatura nas produções literárias e composições musicais do meio erudito, ainda que em um ou outro momento se tente invalidar o seu valor enquanto manifestação artística cultural.

 

Palavras-chave: LITERATURA POPULAR. LITERATURA ERUDITA. INFLUÊNCIAS DO CORDEL.

 

 

THE POPULAR LITERATURE AND A RELATIONSHIP OF POWER

WITH A WRITING LITERATURE

 

Luciana da Costa Bulhões ¹

Pedro Costa Pereira ²

Ronaldo Antônio Torres Cruz ³

Christiane Batinga Agra 4

 

 

ABSTRACT

 

Introduction: Loaded with a very strong cultural essence, the leaflets were the main means of communication and literacy in the small cities of the northeastern interior, where they were taken by singing poets, usually on horseback. Due to the strong need for reading, the brochures became a multilevel instrument, since literacy for many Northeastern people began from reading these informative or romanticized pamphlets. It was not until the 1940s that this literary type became known as string literature. Objective: to construct reflections about the relation of the cordel literature with the traditional literature in the spaces of fairs, parties and literary biennials. Methodology: This is a bibliographical research, with a qualitative and exploratory approach, whose theoretical contribution brings the contributions of Bagno (2014), Cândido (2014) and Possenti (2002) and data collection was done through semi-structured interviews . Results: The string has undergone modifications over time, being found, many times, without the metric that has always been traditional to it. However, it was also the passing of the years that brought him the possibility of expanding his horizons by participating in biennials and various literary festivals, events in which he integrates with scholarly literature and shortens the distance between the fruit of popular literature and the product of elites literary works. Conclusion: The prejudice about the cord still permeates the literary milieu, however, the influences of this literature in the literary productions and musical compositions of the middle scholar are notorious, although at one time or another it is tried to invalidate its value as a cultural artistic manifestation.

 

Keywords: POPULAR LITERATURE. ERUDITE LITERATURE. INFLUENCES OF CORDEL.

 

 

 

 


1 INTRODUÇÃO

 

Este artigo tem como objetivo erigir reflexões acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos espaços de feiras, festas e bienais literárias.

O cordel é uma narrativa poética geralmente estruturada em estrofes de seis versos (sextilha) e em sete sílabas poéticas, com rimas obrigatórias no segundo, quarto e sexto versos, impresso em formato de folheto (CORDA, 2018). Sua origem data dos cantadores medievais e chegou na Península Ibérica por volta do século XVI e em Portugal recebeu o nome de “folhas soltas” ou “volantes”. Com a invenção da prensa os folhetos impressos passaram a ser vendidos pendurados em cordel, vindo daí o seu nome atual (CORDEL, 2016). Aportou no Brasil nas malas dos colonizadores, se instalando primeiramente em Salvador, à época, capital da colônia, expandindo-se, depois, para outros estados do Nordeste, levados pelas vozes dos poetas cantadores e ceguinhos declamadores, e essa poesia oral não tinha ainda uma identidade própria, não podendo ser chamada de literatura, pois a oralidade é uma forma de comunicação e não uma natureza literária. A literatura está sujeita à palavra impressa (MOISÉS, 2012). Somente no final do século XIX a poesia popular teve seus primeiros exemplares impressos. Coube a Leandro Gomes de Barros, um poeta popular, imprimir os primeiros folhetos – como ficou conhecido o cordel – e comercializá-los, fazendo muito sucesso junto à classe popular (TELMO, 2011).

Carregado de uma essência cultural muito forte, os folhetos eram o principal meio de comunicação e alfabetização nas pequenas cidades do interior nordestino, onde eram levados por poetas cantadores, geralmente em lombo de cavalo. Devido à forte necessidade da leitura, os folhetos se tornaram em instrumento de multiletramento, pois a alfabetização para muitos nordestinos começou a partir da leitura desses folhetos informativos ou romanceados. Somente a partir da década de 1940 é que esse tipo literário ficou conhecido como literatura de cordel (CORDEL, 2016; TELMO, 2011).

O cordel tem inspirado escritores eruditos e a compositores da música popular brasileira ao longo do tempo e a “espontaneidade e graça dessas criações fazem com que o leitor urbano, mais sofisticado, lhes dedique interesse, despertando ainda a pesquisa e análise de eruditos universitários” (Drummond, apud DIAS, 2013). João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, escritores consagrados na nossa literatura, foram influenciados pelo cordel. A Rede Globo de Televisão produziu e exibiu a novela Saramandaia, em 1976, baseada no cordel “O romance do pavão misterioso”, um clássico da literatura popular. Compositores como Chico Buarque, Zé Ramalho, Nando Cordel, Raul Seixas, Ednardo e Alceu Valença em algum momento se inspiraram nas sextilhas ou nas décimas dos cantadores (TELMO, 2011).

Para as reflexões acerca da pesquisa, usamos a premissa da compreensão de que “a poesia é um tipo de linguagem que manifesta o seu conteúdo à medida que é forma, isto é, no momento que se define a expressão” (CÂNDIDO, 2014, p. 32).

 

 

2 GÊNERO LITERÁRIO

 

Os gêneros literários diferem-se dos gêneros textuais na sua essência pragmática. Enquanto o segundo abrange todas as formas de textos e são definidos pela função comunicativa, o primeiro limita-se apenas aos textos relacionados à literatura. Assim, o bilhete, a carta, o telegrama, a lista de compras, a bula de remédio, o jornal e outros são gêneros textuais; o romance, o conto, o livro de poemas, a peça teatral, são gêneros literários.

A Literatura de Cordel situa-se, portanto, dentre os gêneros literários, embora nem sempre tenha sido considerada como tal. E é como gênero literário que percorre o país como uma das expressões culturais mais populares do Brasil.

 

 

3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

 

A literatura é relativamente autônoma e, como tal, não é meramente a imitação da realidade ou a mimese aristotélica. O discurso literário não se delimita no tempo e no espaço, cujos enunciados são criados para produzir sentido no leitor, dentro do seu contexto histórico-social, como também da sua compreensão de mundo (KOCH, 2015). "A literatura não é cópia do real, nem puro exercício de linguagem, tampouco mera fantasia que se asilou dos sentidos do mundo e da história dos homens" (SEF, 1997, p. 37). A criação literária é um processo subjetivo, cujo objetivo é produzir sensações no público leitor e pode ou não estar misturado a procedimentos do cotidiano. Madame Staël, na França, foi quem primeiro formulou e esboçou que a literatura é também um produto social, exprimindo condições de cada civilização em que ocorre (CÂNDIDO, 2014).

Enquanto a literatura erudita utiliza-se de aspectos estéticos em realce da função poética (função social, filosófica e ideológica), a literatura popular privilegia a função social (CÂNDIDO, 2014) e o cordel reforça a estética poética na linearidade dos seus versos metrificados, estrofes e rimas regulares, o que o torna de fácil aceitação por um público acrítico. O cordel usa a linguagem social, ou seja, a língua em sua situação de uso, o português não padrão que vem à tona com toda força transformadora (BAGNO, 2014, grifo nosso), reforçado pela afirmação de Possenti (2002, p.  55) de que são “os gramáticos que consultam os escritores para verificar quais são as regras que eles seguem, e não os escritores que consultam os gramáticos para saber que regras devem seguir”.

 

 

4 METODOLOGIA

 

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, cujo aporte teórico traz a contribuição dos estudos de Bagno (2014), Cândido (2014) e Possenti (2002) e cuja coleta de dados foi desenvolvida a partir da técnica de entrevistas semiestruturadas, tendo como ponto de partida uma pesquisa bibliográfica sobre as manifestações cordelistas no Brasil e suas influências junto às camadas elitizadas.

A pesquisa bibliográfica se baseia em material previamente elaborado, constituído geralmente de livros e artigos científicos, mas que não despreza outras fontes secundárias como: teses, dissertações, anais de congressos e outros eventos científicos, jornais e revistas impressos e eletrônicos e outras. A pesquisa exploratória, por sua vez, visa ao esclarecimento de determinados fenômenos, dando uma visão geral do fato estudado, sendo, por isso, caracterizada como uma primeira parte de uma pesquisa mais ampla. Costumeiramente, envolve levantamento bibliográfico e documental, entrevistas não padronizadas e estudos de caso (GIL, 2008).

Sobre a abordagem qualitativa, Oliveira (1999) apud Oliveira (2008, p. 47) esclarece que esse tipo de técnica proporciona “compreender [...] processos sociais, oferecer contribuições no processo das mudanças, criação e formação de opiniões de determinados grupos e interpretação das particularidades dos comportamentos ou atitudes dos indivíduos”.

Marconi e Lakatos (1999, p. 94) definem entrevista como um “encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de um determinado assunto. ” As entrevistas podem ser estruturadas, não estruturadas ou semiestruturadas. Para a presente pesquisa, foram realizadas entrevistas semiestruturadas, por permitirem maior flexibilidade e adaptação ao contexto e ao entrevistado, mantendo, contudo, a formalidade das perguntas norteadoras iniciais, pois, como assevera Minayo (2001), as entrevistas semiestruturadas combinam a liberdade de abordagem do tema pelo entrevistado e as perguntas previamente elaboradas pelo entrevistador.

As entrevistas foram dirigidas a dois escritores de cordel e a uma proprietária de loja de artigos da cultura popular – folhetos, esculturas de madeira e de barro – no Mercado de Artesanato, em Maceió, e na praia do Francês.

 Os poetas cordelistas responderam a perguntas específicas, relacionadas ao objetivo da pesquisa. O primeiro, Carlos Silva, respondeu via Messenger, no dia 06 de dezembro de 2018; o segundo, Jorge Calheiros, respondeu em entrevista gravada em vídeo, na Biblioteca Graciliano Ramos, no dia 21 de dezembro de 2018 e a entrevista com a proprietária da loja de produtos da cultura popular, Rosa Maria, também gravada em vídeo, ocorreu em um fast-food localizado no Maceió Shopping, no dia 03 de dezembro de 2018.

 

 

5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

O roteiro previamente elaborado para a realização da entrevista contou com um repertório de cinco perguntas (Quadro 1) dirigidas ao cordelista Carlos Silva.

 

 

 

 

 

 

Quadro 1 – Roteiro da Entrevista Semiestruturada

 

1. Antigamente o cordel era tido como uma literatura do interior do Nordeste, mais especificamente das pequenas cidades, que era levada nas vozes dos violeiros ou dos ceguinhos cantadores. O que mudou ao longo dos anos? 

 

2. O leitor do cordel eletrônico é o mesmo do folheto?  

 

3. Em artigo intitulado A literatura de cordel, publicado na Folha de São Paulo em 01/06/1999 Ariano Suassuna dizia que "Quem faz, e deve fazer, arte popular são os integrantes do 'quarto estado'", em alusão aos três estados falados na Revolução Francesa: nobreza, clero e povo. O quarto estado, segundo Suassuna, seria o Brasil não oficial, o Brasil dos excluídos. Porém o poeta Carlos Pena Filho com "Episódio sinistro de Virgulino Ferreira", Chico Buarque com "Violeira", aventuraram na poesia popular. Zé Ramalho gravou um cordel de sua autoria. Isso não contraria a argumentação de Suassuna de que somente quem vive à margem da sociedade está capacitado a fazer cultura popular?

 

4. Qual o público leitor, hoje, da literatura de cordel?

5. Cada vez mais os cordelistas têm ocupado espaço nas bienais e festas literárias, posando ao lado de escritores famosos da literatura universal. Como está sendo a aceitação do cordel pelo público leitor e pelos autores que frequentam essas vitrines literárias?

    Fonte: Elaborado pelos autores, 2018.

 

            De acordo com o cordelista Carlos Silva, a literatura de cordel se transformou em referência ao longo dos anos: “houve um interesse maior por esta modalidade poética, de tanto se ouvir através dos mais velhos e hoje a literatura de cordel invadiu sertões e cidades, tornando-se referência, principalmente em trabalhos acadêmicos. ”

Na visão do cordelista, há diferença entre o leitor do cordel eletrônico e o leitor do cordel tradicional, em folheto:

 

Há um conservadorismo muito notório. O leitor de cordel tradicional, não se rende tanto a leituras através do computador. Até (por uma questão de acompanhamento da evolução cibernética) ele procura em alguns sites o que dizem e fazem com o cordel.

 

Sobre a afirmativa de Suassuna e a alusão deste ao quarto estado – o Brasil dos excluídos, Carlos Silva retruca: “a arte está aberta para todo e qualquer cidadão independente do seu Estado de vivência social, pois, em todos os meios de classes ou posições, existem poetas dispostos a abraçar a inspiração que lhe chega de forma criativa. ”

Já com relação ao público leitor contemporâneo da literatura de cordel, o cordelista afirma que a notoriedade deste tipo de literatura se fez possível quando determinada emissora exibiu uma novela que tinha como base norteadora um cordel:

 

Com a exibição de uma novela numa determinada emissora, vimos a enxurrada de trabalhos em escolas serem despontados como forma pedagógica, utilizando a literatura de cordel, que já estava ali ao alcance e conhecimento de muitos, mas que não tinha a notória percepção que lhe era devida. Os professores, alunos debruçaram-se em encantos através dessa POPULARIDADE MIDIÁTICA. Todavia, nos sertões e em outros estados da nossa federação, e independente dessa exibição noveleira, já existia um povo fiel à leitura de cordel.

 

Carlos Silva faz questão de elucidar que existem públicos que, à parte dos encantos promovidos pela mídia, sempre reconheceram o valor da literatura de cordel, prestando-lhe a merecida reverência. Com efeito, o cordelista assevera que a “junção entre o academicismo e o popular se tornou mais estreita face ao interesse nacional, pelo despertamento em relação à Literatura de Cordel. ”

A partir da indagação sobre a ocupação de cordelistas em bienais e festas literárias e a integração com escritores consagrados, Carlos Silva ressalta que:

 

Um SONETO nada mais é que uma modalidade do cordel: para se formar uma estrutura poética de soneto, utilizamos duas quadras (fazendo uma costura de rimas) e dois tercetos. Só que há tempos atrás o escritor de nome nacional, não dava tanta importância para a cultura cordelista, mas isso ganhou novos ares e ambos convivem, hoje, em grandes exibições literárias, com muita tranquilidade, e isso enriquece ainda mais a nossa querida literatura de cordel.

 

É o fruto da composição que se forma da complementariedade entre a literatura erudita e a literatura popular: enquanto a primeira trata de aspectos estéticos (que enfatizam as funções social, filosófica e ideológica), a segunda se ocupa da função social, que encontra na literatura de cordel uma estética poética na linearidade, como afirma Cândido (2014).

Seguindo com as entrevistas, o rol das perguntas feitas ao cordelista Jorge Calheiros segue descrito no Quadro 2.

 

 

Quadro 2 - Rol de perguntas para a entrevista com Jorge Calheiros

1. Qual sua relação com o Cordel?

2. O cordel de hoje segue a mesma linha de antigamente ou mudou alguma coisa?

3. Antigamente o cordel era tido como uma literatura menor. Hoje ainda existe o preconceito?

4. Cada vez mais os cordelistas têm ocupado espaço nas bienais e festas literárias, posando ao lado de escritores famosos da literatura universal. Como está sendo a aceitação do cordel pelo público leitor e pelos autores que frequentam essas vitrines literárias?

    Fonte: Elaborado pelos autores, 2018.

 

Em resposta à primeira indagação, o cordelista Jorge Calheiros afirmou que sua relação com o cordel data de seus 8-10 anos. À época, em virtude das dificuldades financeiras de seu pai, não frequentava a escola... nem ele, nem os seis irmãos. Ele aprendeu a ler e escrever por meio do cordel, que desde então se transformou em sua paixão.

Quando perguntado se o cordel contemporâneo segue a mesma linha do cordel tradicional, Jorge afirmou que mudou: “hoje, eu pego em livros que não existe a métrica. ” Muito provavelmente, esse fenômeno tem relação com a afirmativa de Possenti (2002, p. 55): “os gramáticos que consultam os escritores para verificar quais são as regras que eles seguem, e não os escritores que consultam os gramáticos para saber que regras devem seguir. ”

A terceira pergunta trata do preconceito relativo à condição de literatura menor que o cordel carrega consigo. Para o cordelista, o preconceito existe e é relativo à cultura. Apesar de ter adquirido certa usabilidade nas escolas, em virtude da visão produzida pela mídia (como se verificou na entrevista com Carlos Silva), “alguns professores ainda têm a ignorância de dizer que o cordel atrapalha a escola. ”

Já com relação à ocupação dos espaços nas bienais e festas literárias, Jorge considera que a literatura de cordel tem sido bem aceita: “todas as bienais, a literatura tá indo. Os grandes escritores também dão apoio. Já tenho falado com muitos e eles têm me apoiado. Tem um de Belo Horizonte que disse: Jorge, queria eu saber escrever cordel, que é uma história linda e todo mundo gosta do cordel e eu fiquei honrado. ”

A pesquisa ganhou mais uma extraordinária contribuição quando da entrevista com Rosa Maria, proprietária de loja de produtos da cultura popular. O roteiro de perguntas segue no Quadro 3.

 

Quadro 3 – Roteiro da Entrevista informal com Rosa Maria

1. Como se iniciou o seu gosto pela literatura de cordel?

2. Esse gosto perdura até hoje?

3. O que levou a senhora a trazer esse gosto para Maceió e disponibilizar um espaço no Mercado do Artesanato para a leitura desse tipo de produção literária?

4. Os estudantes procuravam sua loja?

5. E esses estudantes eram mais de escolas públicas ou privadas?

6. A senhora vendia em média, por mês, quantos cordéis? A que público vendia mais? E no Francês?

7. Dos cordelistas novos de Alagoas, tem algum que se destaque?

Fonte: Elaborado pelos autores, 2018.

 

A senhora Rosa Maria do Nascimento Silva é natural do sertão pernambucano e começou a amar o cordel com os alunos de sua mãe, que chegou a alfabetizar muitas crianças que, maravilhadas pela possibilidade de ler, compravam diversos cordéis e se punham a ler debaixo de árvores. As histórias lidas enchiam o coração de Rosa Maria: “tudo que eles liam eu vivenciava na minha alma... eram histórias muito bonitas...”

Vindo para Maceió, a amante do cordel trouxe esse gosto para a localidade do Mercado do Artesanato, onde tomou conhecimento sobre um antigo vendedor que havia perdido o interesse em disseminar essa literatura. Instigada por isso, montou um espaço apropriado, com mesinhas tradicionais, como as que usara em Pernambuco, para a leitura cordelista e passou a comercializar os cordéis. Sua intenção era divulgar a literatura de cordel, por achá-la fascinante e rica, uma vez que traduzia “a alma pura do nordestino, do homem simples, que ele bota para fora o que ele sente, sem se preocupar com rimas, muitas vezes, apenas em expressar sentimentos. ”

Segundo Rosa Maria, os estudantes eram assíduos frequentadores e compradores de cordéis em sua loja no Mercado do Artesanato. Oriundos basicamente de escolas públicas, eram estudantes de escolas e de universidades que “levados pelas solicitações dos mestres” buscavam o lugar para fazer trabalhos acadêmicos (nos quais ela ficava feliz em ajudar, pois emprestava-lhes o conhecimento e experiência de que era possuidora).

A microempresária chegava a vender, em média, 300 exemplares de cordéis, por mês. E seus compradores eram constituídos, em sua maioria, por estudantes. Segundo Rosa, ainda havia muito preconceito com relação à literatura de cordel. Esse preconceito era local, pois, ao comercializar seus cordéis no Francês, os turistas enalteciam e se maravilhavam com esse tipo de escrita literária e levavam os exemplares para seus locais de origem com muito orgulho da aquisição.

Quando indagada sobre algum cordelista contemporâneo alagoano que tenha alcançado destaque no cenário local e, até mesmo, regional e nacional, Rosa citou o nome de Jorge Calheiros, mas lamentou o fato de que os novos cordelistas estão fugindo das rimas autênticas do cordel: “é preciso ter aquele traço do cordel do passado. ”

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

Este artigo teve como objetivo erigir reflexões acerca da relação da literatura de cordel com a literatura tradicional nos espaços de feiras, festas e bienais literárias. A partir das entrevistas e do confronto com os teóricos que embasaram este estudo foi possível verificar que ainda há grande preconceito a respeito da literatura de cordel, ainda dita literatura menor. Entretanto, com a abertura dos espaços midiáticos e das bienais e outros eventos literários, a visão sobre este tipo de produção literária vem mudando e conseguindo o respeito de muitos escritores da chamada literatura erudita, o que promove grandes reflexões acerca da relação de poder entre tais literaturas, como se propôs no objetivo desta pesquisa. Ainda que em um ou outro momento se tente invalidar o valor do cordel enquanto manifestação artística cultural, esse tipo de literatura se afirma cada dia mais, através dos usos que se vem fazendo dela no meio erudito, o que a torna notoriamente influente e marca sua ascensão às camadas mais elitizadas.

 

 


REFERÊNCIAS

 

 

 

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália. 17. ed. São Paulo: Contexto, 2014.

 

 

CÂNDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudo de teoria e história literária. 13. ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2014.

 

 

CORDA, A. O cordel e sua estrutura. Disponível em: <http://acorda.net.br/

estrutura-do-cordelprojetoacorda/>. Acesso em: 29 dez. 2018.

 

 

CORDEL, Izaías. O que é literatura de cordel. 2016. (15m53s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=yApw5arCI4c>. Acesso em: 28 dez. 2018.

 

 

DIAS, L. Literatura de cordel. 2013. Disponível em: <http://virusdaarte.net/

literatura-de-cordel/>. Acesso em: 29 dez. 2018.

 

 

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

 

 

KOCH, I. G. V; ELIAS, V. M. Ler e compreender: os sentidos do texto. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2015.

 

 

MARCONI, Maria de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Técnicas de pesquisa. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999.

 

 

MINAYO, Maria Cecília de Souza (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 18. ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

 

 

MOISÉS, Massud. A criação literária: poesia e prosa. São Paulo: Cultrix, 2012.

 

 

OLIVEIRA, P. M. P. de et al. Literatura de cordel como estratégia educativa para prevenção da dengue. Texto contexto - Enfermagem, Florianópolis, v. 20, n. 4, p. 766-773, dez. 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php

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POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. São Paulo: Mercado de Letras, 2002.

 

 

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa. Brasília: MEC. 1997.

 

 

TELMO, Junior. Literatura de cordel globo rural. 2011. Disponível em: <https://

www.youtube.com/watch?v=7DosjK6GSUQ>. Acesso em: 26 dez. 2018.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Tempos modernos: a Carta de Pero Vaz de Caminha pelo WhatsApp

E se Pero Vaz de Caminha escrevesse a Carta do Achamento pelo WhatsApp? Este vídeo é um trabalho de sociolinguística recontando a História do Achamento do Brasil pelas redes sociais. Texto: Tom Torres

Grupo:

Tom Torres Bruno Omena Pedro Costa Professora Cleide Calheiros




segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

O OLHAR DO LIVRO DIDÁTICO PARA A SOCIOLINGUÍSTICA E A GRAMÁTICA

 

Benito Carlos Gomes F. do Nascimento*

Pedro Costa Pereira*

Ronaldo Antonio Torres Cruz*

Roseane Elias dos Santos*

 

 

 

 

 

1.    RESUMO

 

O presente artigo é resultado de uma pesquisa bibliográfica de fontes específicas da área de sociolinguística e de projetos integradores IV, e tem como objetivo refletir e discutir o contributo que as autoras Roberta Hernandes Alves e Vima Lia Martim oferecem para a compreensão da sociolinguística e da gramática do livro didático do 1º ano do Ensino Médio, Veredas da Palavra. Elas dedicam um capítulo inteiro explorando a questão das variações linguísticas e do preconceito linguístico, o que nos permitiu dialogar com os autores Marcos Bagno, Sírio Possenti e Lívia Suassuna e trazer à luz da reflexão a abordagem dos fenômenos linguísticos e os significados que assumem em diferentes contextos regionais e sociais. Observamos que o assunto abordado no livro didático não foi suficiente para trabalhar a variação linguística de maneira que alunos e professores tivessem um nível razoável de compreensão.

 

Palavras-chave: Sociolinguística. Projetos integradores IV. Gramática. Livro didático.

 

2.    INTRODUÇÃO

 

Monteiro Lobato, no início da terceira década do século vinte, escreveu que “A língua é um meio de expressão. Modifica-se sempre no sentido de aumentar o poder da expressão. A variedade de coisas novas que tivemos necessidade de expressar, num mundo novo como o Brasil, forçou e força no povo um surto copiosíssimo de vocábulos” (LOBATO, 1922, p. 184). Adepto do movimento modernista que se insurgiu contra a ditadura da gramática, Lobato chamava a atenção para a miscigenação presente na nossa língua desde o dia em que a esquadra de Cabral aportou no sul da Bahia.

Quase cem anos depois que Lobato escreveu esse artigo, apesar da evolução da língua(gem) em ritmo acelerado, apesar da revolução causada pela nanotecnologia, a nossa gramática normativa continua atrelada às âncoras dos navios dos colonizadores, tecendo loas à nossa unidade gramatical. A linguística aplicada há décadas que vem investigando a língua como fenômeno heterogêneo e variável, porém “numa comparação com a produção bibliográfica sobre linguística textual, letramento, leitura, escrita, gêneros textuais, análise do discurso etc., a gente logo percebe que são poucos os títulos que abordam especificamente a variação linguística” (BAGNO, 2014a, p. 29).

Fazendo um passeio na história recente da educação no Brasil, veremos que até a década de 1960 as escolas públicas eram em número reduzido e se concentravam nas cidades, cujas vagas eram destinadas, em sua maioria, aos estudantes oriundos da classe média. O desenvolvimento industrial em ritmo acelerado, a partir de meados dos anos 1960, aumentou o êxodo rural, causando o crescimento desordenado dos grandes centros urbanos e graves consequências sociais. Era preciso repensar a educação, então foram construídas novas escolas para acolher os filhos dos deserdados sociais e isso resultou no desprestígio total do ensino público. A precariedade tornou-se visível: salas superlotadas, prédios mal construídos, material de uso didático insuficiente e professores mal pagos e mal formados. Esse é o perfil da nova escola construída a partir da tomada de poder pelos militares. A isso, chamaram de “democratização” do ensino no Brasil, o aumento quantitativo em detrimento do qualitativo. (BAGNO, 2014a, p. 30, 31).

Os frequentadores da escola pública antes da democratização eram, em sua maioria, falantes das variedades linguísticas urbanas, usuários de uma prática mais formal da linguagem. Os professores eram oriundos da classe média que tinham o hábito da leitura e conhecimento de uma língua estrangeira, sobretudo o francês, considerada uma língua de prestígio na época. E essa foi a realidade encontrada pelos alunos egressos da classe pobre ou miserável. Os materiais didáticos eram insuficientes ou conflitantes com a diversificação sociolinguística, sociocultural e socioeconômica. A formação docente também não estava preparada para lidar com os novos desafios. A variação linguística, em vez de ser tratada como “a língua em seu estado permanente de transformação, de fluidez e de instabilidade” (BAGNO, 2014a, p. 38), era tachada como erro gramatical do falante. Gerações depois da “democratização” do ensino, aqueles falantes de variedades desprestigiadas passaram a ocupar a carreira de docente e com isso as construções gramaticais consideradas erradas pela norma-padrão também invadiram as salas de aula na fala dos professores, o que levou a linguística aplicada a concentrar suas pesquisas nas variedades linguísticas.  (BAGNOa, 2014, p. 32 e 33).

A atividade linguística é aquela praticada pelos falantes nas suas comunidades, cuja finalidade é servir como instrumento de interação social. Sendo usuário dessa prática linguística, o estudante leva-a para a sala de aula e geralmente sofre o preconceito e os professores se sentem despreparados para lidar com a situação, pois a sociolinguística é praticamente ignorada pelos autores dos livros didáticos, que privilegiam a norma-culta em detrimento da variação linguística. “A escrita, a literatura, e a escola são instituições eminentemente sociais, são invenções culturais, criações artificiais e muito recentes na história da humanidade” (BAGNO, 2014a, p. 35), portanto, são fatores instáveis e a língua está sempre se reinventando, e a padronização sem exceção da regra é uma idealização em descompasso com a evolução linguística.

Nos PCN de 1997, o Ministério da Educação finalmente reconheceu as variedades dialetais dos falantes brasileiros e recomenda que o preconceito linguístico seja combatido na escola (BAGNO, 2014, p. 27). Isso foi um grande passo na mudança da concepção de ensino, porém é preciso vencer “a resistência das pessoas muito apegadas às concepções antigas e a falta de formação adequada dos professores [...]” (BAGNO, 2014a, p. 28). A consequência disso é que a variação linguística não é tratada pelos docentes conforme determinada nos PCN, principalmente por falta de um aporte teórico razoável nos livros didáticos de língua portuguesa.

Diante do exposto, o presente artigo se propõe a analisar como o livro didático apresenta as variações linguísticas e a gramática internalizada, descrevendo os fenômenos linguísticos nos campos morfossintáticos e léxico-semânticos, ou seja, como a palavra se expressa e os significados que assume em diferentes contextos regionais.

 

3.    DIALOGANDO COM A TEORIA

 

Trazemos alguns conceitos importantes para a compreensão das variações linguísticas e gramaticais teorizadas por Marcos Bagno, Sírio Possenti e Lívia Suassuna na análise do LD Veredas da palavra, considerando que apenas esse recorte teórico não será suficiente para a compreensão da complexidade dessa abordagem temática.

Iniciaremos abordando a heterogeneidade das línguas que, na concepção dos sociolinguistas, é múltipla, variável, instável e está sempre em desconstrução e reconstrução. Ao contrário da norma-padrão, que é idealizada como um produto homogêneo, a língua é um meio de interação social e em constante processo de mudanças (BAGNO, 2014a, p.36).

A colonização portuguesa usou a violência como ferramenta de dominação cultural, principalmente a língua(gem). Mas o português que ficou no litoral ou que adentrou o interior perdeu sua originalidade na diversidade linguística praticada pelos índios, pelos negros vindos da África e por outros invasores, tais como, franceses e holandeses. A lição que podemos tirar dessa miscigenação linguística é que não existem línguas estáveis. A linguagem é dinâmica e está sempre em processo de mutação. O português, que era latim, é um exemplo desse processo mutante. A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal descrevendo o descobrimento usa uma linguagem diferenciada da linguagem atual. Por sua vez, o latim não foi a língua falada no advento do Pecado Original. Resultou das mutações de outras línguas e também se modificou tanto que dela nasceram outras línguas, a exemplo do francês, italiano, espanhol, além do próprio português (POSSENTI, 2002, p. 37).

“A análise linguística é uma prática mais ampla que envolve a gramática”. Os assuntos envolvendo o dígrafo ou às estruturas da língua ou à ortografia são questões consideradas gramaticais, ao passo que a compreensão de um texto é uma questão linguística (SUASSUNA, 2012, p. 14). Em ambos os casos, “o fundamental no estudo da gramática/análise linguística é contemplar a variedade de recursos expressivos postos à disposição do falante/escritor para a construção de sentido” (SUASSUNA, 2012, p. 15).

Na análise linguística há três distinções de atividades linguísticas: atividade linguística, epilinguística e metalinguística, porém nos ateremos apenas à atividade linguística, que é a atividade de comunicação que o falante pratica na sua comunidade e o LD deve abordar em condições adequadas de maneira que promova a interação social do aluno (SUASSUNA, 2012, p. 16).

 

4.     METODOLOGIA

 

Este trabalho se configura e se caracteriza como uma pesquisa de natureza qualitativa, que tem como objetivo compreender como se manifesta a abordagem das variações linguísticas a partir das observações subjetivas das narrativas escritas e suas particularidades no livro didático (LD) cuja materialização das concepções teóricas se concretizou na análise do corpus, do LD, Veredas da Palavra, das autoras Roberta Hernandes Alves e Vima Lia Martim, editora Ática. Da obra, selecionamos o LD do primeiro ano Ensino Médio que aborda esses dois fenômenos linguísticos. O livro didático está organizado em cinco grandes unidades estruturadas em vinte capítulos.

Analisamos o capítulo 15 que está organizado em tópicos, cujas abordagens estão elencadas da seguinte forma: a) Variedades linguísticas; b) Variedades linguísticas e competência comunicativa; c) Norma-padrão e normas urbanas de prestígio; d) As perspectivas da linguística e da gramática normativa; e) Gíria: uma forma de construção da identidade linguística; f) Preconceito linguístico.

Trazemos à análise os tópicos “a”, “b”, “c”, “d” e “e”, ou seja, os que estão vinculados às variações linguísticas e estabelecemos relações desses tópicos com os enunciados dos teóricos Bagno, Possenti, Suassuna, no que se referem à sociolinguística e à gramática.

O procedimento metodológico teve seu início com a análise de elementos obtidos a partir da pesquisa bibliográfica. Depois desse processo, houve o diálogo entre a literatura acumulada e as informações adquiridas por meio da observação do material selecionado, com vistas a análises abarcantes. Por fim, depois das discussões, vieram as considerações finais.

 

5.    PONDERANDO O TEMA PROPOSTO NO CAPÍTULO 15

 

As autoras abrem o capítulo 15 (p. 256) com o texto intitulado de Mapa da tangerina, extraído do livro de crônicas Percatempo, tudo que faço quando não há o que fazer, de Gregório Duvivier.

Esse texto traz as palavras tangerina, poncã, mexerica, bergamota associadas ao mapa das regiões brasileiras, e transmite a ideia de que são variantes regionais, ou seja, vários nomes para uma mesma fruta, a tangerina. As autoras do LD também entenderam o Mapa da tangerina dessa mesma forma e trazem duas questões relacionadas às variações que a língua(gem) sofre de região para região. Na primeira, elas direcionam o olhar do aluno para as diferentes formas de se falar uma mesma palavra em lugares distintos. Na segunda, perguntam sobre os conhecimentos dos estudantes acerca da variação regional.

 Entendemos que esse exemplo específico do LD não se aplica à variante regional, uma vez que não se trata de dizer diferente a mesma coisa, mas de se nomear diferente as espécies da fruta tangerina. Nossos argumentos são fortalecidos no enunciado de Bagno: “a definição mais simples de variante é a de ‘cada uma das formas diferentes de se dizer a mesma coisa”’ (BAGNO, 2014a, p. 50). Um exemplo de variante regional é a mandioca, da família Manihot palmata, diferente da Manihot esculenta que só serve para fazer farinha (HOUAISS, 2010), em parte do Nordeste é conhecida como macaxeira, na Bahia e em outros estados do Sudeste, aipim, e na Região Sul, mandioquinha. Assim, temos vários nomes para a mesma coisa, o que podemos dizer, nesse caso, que há uma variação dialetal, “um termo usado há séculos, desde a Grécia antiga, para designar o modo característico de uso da língua num determinado lugar, região, província etc.” (BAGNO, 2014a, p. 48). A tangerina em questão tem o nome científico Citrus reticulat, a mexerica Citrus deliciosa, a bergamota Citrus aurantium  e a poncã, Citrus reticulata, uma variedade de tangerina grande e de casca frouxa, originária do Japão (HOUAISS, 2010). Essa última é vendida nos supermercados como laranja poncã; as demais, podemos encontrá-las expostas na mesma gôndola de frutas dos supermercados com os seus respectivos nomes, o que nos leva à conclusão de que, no mapa da variedade regional, de Duvivier, existe apenas variedade da espécie, e não, variação regional, o que se configura um equívoco do autor, que faz uma análise sociolinguística sem se aprofundar em uma análise básica da relação língua sociedade cujas autoras do LD não ponderaram que “ouvir o comentário de um intelectual ou de um jogador de futebol sobre a questão [da língua] é exatamente a mesma coisa” (POSSENTI, Apud BAGNO, 2014a, p. 21).

A segunda questão, “Você conhece outros termos que caracterizam variação regional?”, ainda contida na primeira atividade, deveria ser formulada, portanto, após o final do capítulo, depois que o aluno tivesse uma compreensão mais abarcante do que se trata a variedade regional. Isso porque ainda surgem outras questões sobre o conteúdo em estudo.

Dando continuidade à organização didático-pedagógica da unidade, no tópico Variedades linguísticas (p.257), há uma tirinha, que aparece na sequência, em que o viking Hagar é questionado ameaçadoramente por Helga, sua esposa, que quer saber o motivo de sua ausência prolongada de casa. O diálogo presente na tirinha: (primeiro quadrinho: Helga) “Tá legal, espertinho! Onde é que você esteve?” (segundo quadrinho: Helga) “E lembre-se: se você disser uma mentira os seus chifres cairão.” (primeiro quadrinho: Hagar) “Tudo bem, eu vou contar... Eu tou atrasado porque ajudei uma velhinha a atravessar a rua...” (primeiro quadrinho: Hagar) “... E ela me deu um anel mágico que me levou a um tesouro, mas bandidos o roubaram e os persegui até a Etiópia onde um dragão...” (O melhor de Hagar, o Horrível, de Dick Browne). As autoras registram que “isso se dá porque eles têm uma relação de intimidade, o que permite a ela fazer um uso linguístico mais espontâneo, menos monitorado. Já o Hagar, que se encontra em uma situação desconfortável, de maior tensão psicológica, faz uso de um registro mais formal da língua” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 257).  Continuam: “Sentindo-se pressionado pela mulher, ele utiliza uma fórmula de linguagem mais monitorada e formal para convencê-la a acreditar em sua fantasiosa história” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 257). As ideias trazidas por elas são corroboradas pelas de Bagno, ao dizer que uma situação “pode ser de maior ou menor formalidade, de maior ou menor tensão psicológica, de maior ou menor pressão da parte do(s) interlocutor(es) e do ambiente, de maior ou menor insegurança ou autoconfiança, de maior ou menor intimidade com a tarefa comunicativa que temos a desempenhar etc.” (BAGNO. 2014a, p. 45). Isso ocorre porque somos levados a refletir antes de falar nos momentos de tensão, para dar mais credibilidade às palavras e evitarmos cair em contradições.

Considerando-se que até o momento houve uma tímida orientação no sentido de conduzir o aluno no conceito de variedade linguística, seria mais interessante uma abordagem acerca da diferença entre a linguagem “mais formal” e a “menos monitorada”, deixando o aluno mais confortável para analisar o diálogo da tirinha em questão.

Nesse mesmo tópico, Variedades linguísticas (p. 258), as autoras explicam que o uso da língua está subordinado a determinado contexto e trazem dois exemplos de construções linguísticas de maior ou menor prestígio. O primeiro, “Os senhores queiram, por gentileza, entregar-me os documentos solicitados” e o segundo, “Vamo me dando essa papelada, gente, por favor”, são reconhecidos como formas legítimas do uso da língua, caracterizando, assim, a variação linguística, que é o dizer de formas diferentes a mesma coisa. (ALVES; MARTIN, 2017, p. 258). Informam que essas variações estão presentes em todos os níveis da língua, e dão exemplos e explicações do uso da fonética/fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, lexical e estilístico-pragmática.

O tópico Variedades linguísticas e competências comunicativa (p. 259), faz referências à adequação da competência comunicativa às situações de uso. Traz uma charge em que mostra dois surfistas à beira-mar, observando as ondas. O primeiro personagem, trajando smoking e segurando uma prancha de surfe, é a caracterização da inadequação à situação, reforçada pela falta de monitoramento linguístico: “Veja que belos movimentos elípticos fazem essas ondas, meu caro amigo! Pegá-las-emos nesse instante ou mais tardiamente?” Ao seu lado, o amigo que é surfista, faz cara de poucos amigos. Deste modo, entende-se que a competência comunicativa é o cuidado que o falante deve ter em determinada situação de comunicação.   (ALVES; MARTIN, 2017, p. 260).

No tópico seguinte, Norma-padrão e normas urbanas de prestígio (ALVES; MARTIN, 2017, p. 260), elas afirmam que a variação linguística é própria da língua e, como tal, “é tão somente uma propriedade natural das línguas” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 260). Apresentam o hipérbato “Da minha infância não lembro nada” e “Não lembro nada da minha infância” como exemplo da variação sintática da língua, passando da análise linguística para a análise gramatical, pois, para Suassuna, ao se analisar um texto pelas convenções normativas, faz-se uma análise gramatical; ao se analisar pelo discurso, nesse caso é uma reflexão linguística (SUASSUNA, 2012, p. 14).

Seguindo o entendimento de que a língua é um produto sociocultural, dinâmica e heterogênea, as autoras reafirmam que a variação linguística “não é um defeito, não é um problema. É tão somente uma propriedade natural das línguas” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 260) e fazem uma breve exposição sobre a norma padrão, dizendo que é o produto da relação língua e sociedade, sendo a língua marcada por uma relação de poder, caracterizada por “[...] um conjunto de normas e regras gramaticais que devem ser seguidas pelo usuário indistintamente” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 261), e que, por não representar o uso real da língua, não admite variação.

Sobre a norma urbana de prestígio elas dizem que é aquela “usada por grupos de falantes urbanos, mais escolarizados e de maior nível socioeconômico” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 261) e ilustram a temática desse tópico com um quadro comparativo das variedades linguísticas e a norma-padrão, conforme paradigma, informações e atividades abaixo:

“Para compreender melhor esses contextos, observe o quadro a seguir, comparando suas colunas”:

Coluna 1

Coluna 2

Coluna 3

Variedades menos prestigiadas

Variedades mais prestigiadas

Norma-padrão

eu

falo

eu

falo

eu

falo

você [tu]

ele

a gente

nós

(vo)cês

eles

 

 

 

fala

 

você

ele

a gente

nós

vocês

eles

 

Fala

 

falamos

 

falam

 

tu

ele

nós

vós

eles

falas

fala

falamos

falais

falam

 

 

 

 

 

 

“Que diferença você pode notar entre as colunas? Como se diferencia a flexão dos verbos em cada uma delas? Que pronomes pessoais se mantêm e quais novos surgem?” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 261).

            Em seis linhas, as autoras explicam que as colunas 1 e 2 são duas variantes da língua, enquanto a coluna 3 é a norma padrão e “indica como as pessoas deveriam usar a língua, de acordo com a prescrição da gramática normativa” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 261). Em seguida apresentam duas questões reproduzidas abaixo:

“Você conhece alguém que atualmente se comunique dirigindo-se aos interlocutores pelo pronome ‘vós’?” e “Você e seus colegas usam sempre a forma ‘nós’ quando estão conversando?” (ALVES; MARTIN, 2017, p. 261).

            Trazer o modelo idealizado de língua nessas duas perguntas é uma forma engenhosa e dissimulada de preconceito linguístico, além de que não proporcionam nenhuma reflexão sobre a temática em discussão, pois, mesmo compreendendo a língua(gem) como um produto social, heterogêneo e ordenado. “[...] as perguntas não podem tratar as diferentes abordagens da língua e da linguagem fora de seus contextos teóricos” (BAGNO, 2014a, p. 15). Apesar das perguntas propostas requererem respostas objetivas, que podem ser respondidas apenas com um “sim” ou um “não”, o pronome pessoal vós e a forma verbal correspondente entraram em desuso, sendo substituídas por vocês falam (POSSENTI, 2002, p. 66).

Ainda sobre a atividade acima, compreendemos que “falar é construir um texto, num dado momento, num determinado lugar, dentro de um contexto de fala definido, visando determinado efeito” (BAGNO, 2002, p. 98), o que denota que seria mais produtivo solicitar aos alunos a informação de quando utilizam os pronomes “nós” e “vós” em situações reais de comunicação, ampliando sua competência comunicativa e proporcionando sua aproximação das regras gramaticais. Ademais, no exemplo da conjugação verbal, faltou a análise sobre a variação morfológica, tão importante na compreensão desse fenômeno linguístico. Em seu livro Nada na língua é por acaso (2014), Bagno traz um paradigma semelhante da conjugação verbal no tópico Um roteiro para analisar os livros didáticos, fazendo a reflexão de que “essa tabela já representa uma simplificação do fenômeno, porque existem variedades estigmatizadas em que aparece o pronome tu com as marcas da conjugação de pessoa da conjugação clássica (TU FALAS, TU FALASTE, como no Maranhão e no Pará, mesmo no uso de pessoas não escolarizadas) variedades prestigiadas em que aparece o pronome tu sem as marcas da conjugação clássica (TU FALA, TU FALÔ, como no Rio grande do Sul, mesmo no uso de pessoas  altamente escolarizadas – variedades estigmatizadas em que o verbo na 1ª pessoa do plural tem morfologia própria – NÓS FALAMO, presente, NÓS FALEMO, passado) ou em que o pronome A GENTE é seguido dos verbos com essas  mesmas marcas (A GENTE FALAMO)”  (BAGNO, 2014a, p. 133).

            No tópico As perspectivas da linguística e da gramática normativa, elas apresentaram conceitos contrários entre gramáticos normativos e linguísticos aplicados sobre o uso da língua(gem). Os primeiros consideram como erros a variação linguística, enquanto os segundos defendem a variação como possíveis usos da língua.

            Por último, o tópico Gíria: uma forma de construção da identidade linguística, conceitua gíria como “uma variedade da língua criada por determinado grupo social, com o objetivo de reforçar sua identidade”. (ALVES; MARTIN, 2017, p. 264). As autoras fazem conexão da gíria com o jargão, este, uma “gíria” usada em determinadas profissões que tem muito a ver com suas rotinas profissionais. Os dois, segundo o LD, são variantes linguísticas excludentes, vez que só são usados entre pessoas de um mesmo grupo social ou profissional e não são entendidos por aqueles que não fazem parte dessas comunidades.

            Na página seguinte (p. 265), para trabalhar com esse recorte, trazem como atividade a letra da música Vaca estrela e boi Fubá, do poeta Patativa do Assaré.

“Seu dotô me dê licença pra minha história contar / Hoje eu tô na terra estranha, e bem triste o meu penar / Mas já fui muito feliz vivendo no meu lugar / Eu tinha cavalo bom e gostava de campear / E todo dia aboiava na porteira do curral. [...]”.

Observamos que as autoras trouxeram a poesia inserida nessa atividade descontextualizada da temática gíria (o que dá a entender, a princípio, de que se relacionaria com esse tema). No entanto, o poema manifesta-se em variante regional, causando um conflito de compreensão entre o que é gíria e o que é regionalismo, mesmo porque as atividades seguintes estão relacionadas à gíria, exceção para uma fotografia, na página 267, expondo diversos itens alimentícios (grãos e farinhas distintas, de difícil identificação) e uma placa de madeira entre eles com a seguinte informação: “Temos carimã”. Abaixo da fotografia, a seguinte pergunta: “Você conhece o sentido do termo ‘carimã’? Em caso negativo, levante hipóteses sobre o significado dessa palavra, levando em conta o contexto em que se encontra a placa”.

Mais uma vez, caracteriza-se como uma situação de conflito nas temáticas “gíria” e outras variantes da linguagem, pois, a exemplo do poema de Patativa do Assaré, esta atividade está na sequência do tema gíria. Existem duas possibilidades de respostas no questionamento efetuado: “sim” ou “não”. Caso a resposta seja afirmativa, não haverá ligação com os temas estudados até aqui e a pergunta encerrar-se-á com um simples “sim”, sem provocar nenhuma reflexão ao aluno. Em caso de resposta negativa, ele terá de pesquisar em outras fontes o significado da palavra “carimã” e, ao encontrá-la, constatará que se trata de uma variação semântica, cujo verbete, segundo o dicionário Houaiss: “carimã: 1 farinha de mandioca seca e fina 2 Rubrica: culinária. bolo feito de farinha de mandioca 3 Rubrica: culinária. bolo feito com massa azeda de mandioca mole, seco ao sol 4 Regionalismo: Pará. espécie de mingau de farinha de mandioca dissolvida em água e açucarada que se dá às crianças 5 praga que ataca os algodoeiros”. (HOUAISS, 2010).

No contexto em que a placa se apresenta, observa-se a existência de alguns produtos alimentícios, entre eles, três tipos de farinha, sem nenhuma especificação, donde se conclui que a palavra carimã se refere ao item 1 do dicionário Houaiss, ou seja, trata-se da “farinha de mandioca seca e fina”, portanto, por ser carimã uma palavra que exige um contexto para formar sentido, e as gírias são variedades linguísticas usadas em determinado grupo social,  essa atividade,  em vez de causar reflexão, poderá causar confusão no estudante, pois as questões seguintes se relacionam ao tópico gíria.

As demais atividades seguem a linha de provas de vestibulares e concursos. São todas questões objetivas requerendo apenas uma resposta como correta, de uma sequência de cinco alternativas.

 

           

6.    COMENTÁRIOS FINAIS

 

Finalizando a nossa análise do livro didático Veredas da Palavra, das autoras Roberta Hernandes Alves e Vima Lia Martim, podemos afirmar que o referido livro trata a variação linguística de maneira superficial e em alguns momentos de forma equivocada, não se aprofundando no conteúdo e ignorando a pluralidade de línguas existentes no país, como também ficaram de fora conceitos importantes para a compreensão da língua(gem) como fator social a exemplo da assimilação, que é a “força que tenta fazer com que dois sons diferentes, mas com algum parentesco, se tornem iguais, semelhantes” (BAGNO, 2014b, p. 77) como é o caso de se dizer falano em vez de falando e a abordagem sobre “a eliminação das marcas do plural redundantes” (BAGNO, 2014b, p. 52), que é a concordância de número.

O referido livro didático limita-se apenas a interpretações errôneas de alguns textos, como também fazem uma brevíssima análise das variedades prestigiadas, evidenciando-se o desinteresse em levar o aluno a uma análise mais profunda da temática proposta e essa superficialidade na abordagem da sociolinguística talvez seja apenas “para cumprir as exigências do Ministério da Educação e poder entrar na lista das obras que vão ser compradas e distribuídas” (BAGNO, 2014a, p.135).  

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

ALVES, Roberta Hernandes; MARTIN, Vima Lia. Veredas da palavra, manual do professor, vol.1, p. 256 a 268. São Paulo: Ática. 2017.

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parabólica. 2014a.

___________. A Língua de Eulália: novela linguística. São Paulo: Contexto. 2014b.

___________. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola. 1999.

HOUAISS. Dicionário eletrônico. 2010.

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. São Paulo: Mercado de Letras. 1996.

SUASSUNA, Lívia. Ensino de análise linguística: situando a discussão. In: SILVA, Alexsandro; PESSOA, Ana Cláudia, LIMA, Ana (Org.). Ensino de gramática: reflexões sobre a língua portuguesa na escola, p. 11 a 27. Belo Horizonte: Autêntica. 2012.

Site:

LOBATO, Monteiro. A onda verde, p. 183/184. São Paulo: Monteiro Lobato. 1922. Baixado de: https://pt.scribd.com/doc/32173526/A-Onda-Verde-Monteiro-Lobato

Visitado em 15/07/2018.