Análise
do discurso na frase estampada na camiseta do então presidente da República Fernando
Collor de Mello às vésperas de ser afastado do cargo para responder o processo
de Impeachment aberto pelo Senado Federal.
Ronaldo Torres
Roseane Elias
Pedro Costa
Karla Juliana
Edson Santos
Analisaremos o provérbio latino “O
Tempo é o senhor da razão” impresso na camisa de Fernando Collor de Mello às
vésperas do seu afastamento da Presidência da República não pelo seu sentido
Semântico-pragmático, ou seja, pela relação de um contexto, pelo conhecimento
de mundo ou outro conhecimento que o leitor tenha em sua memória. Nossa análise
far-se-á mediante no que se insere numa formação discursiva em função da
memória histórica, do interdiscurso, da ideologia, da ressignificação do
enunciado, considerando que o sujeito discursivo está relacionado com o
simbólico e com o político.
MEMÓRIA
HISTÓRICA
Fernando
Collor de Mello foi eleito o primeiro presidente do Brasil em eleições diretas no
ano de 1989 após vinte e um longos anos de ditadura. Até então era tido como um
simples playboy que governava Alagoas cuja a mídia o vendeu, um ano antes das
eleições, como um super-herói caçador de marajás por causas de algumas
demissões de servidores públicos que ele promoveu durante seu governo de
Alagoas.
Eleito,
no seu primeiro dia de governo confiscou a poupança e todo o dinheiro que havia
nas contas correntes, justificando só ter “uma bala para matar o tigre da
inflação”. Esse confisco causou grande prejuízo nas finanças dos correntistas e
também na economia do país.
Collor
tomou posse no dia 15 de março de 1990 e em junho começaram as denúncias de
corrupção no seu governo, tendo como principal operador seu tesoureiro de
campanha Paulo César Farias, conhecido como PC Farias. Em 24 de maio de 1992 as
denúncias atingiram diretamente o presidente da República: numa entrevista dada
à revista Veja, Pedro Collor de Mello, acusava PC Farias de ser apenas o testa
de ferro do seu irmão Fernando Collor. No dia seguinte a denúncia passou a ser
investigada pela Polícia Federal. Oito dias depois da publicação da entrevista
de Pedro Collor, foi instalada uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI)
para investigar PC Farias e as suas relações não republicanas com o presidente
da República (Globo, 2017).
A
CPMI confirmou a existência do esquema de corrupção montado por PC Farias em
todos os níveis de governo e descobriu também que as despesas pessoais do
presidente da República e de sua mulher, Rosane, eram pagas pelo empresário com
cheques de contas em nome de fantasmas. Era um esquema bilionário de
arrecadação de recursos entre empresários sob a forma de propina e recursos
públicos desviados. Esse esquema veio a público no depoimento de Eriberto
França, motorista da secretária particular de Collor, Ana Acioli. Ele revelou à
CPMI que os pagamentos das contas de Collor e sua esposa eram feitos com
cheques de contas fantasmas, inclusive as despesas da Casa da Dinda, mansão
particular onde o presidente residia, como também a compra de um Fiat Elba, que
serviu de estopim para o processo de impeachment do presidente da República.
Descobriu-se também que Ana Acioli e PC Farias fizeram saques de suas contas às
vésperas do confisco imposto pelo chamado Plano Collor, em 16 de março de 1990
(Globo, 2017).
No
dia 25 de agosto de 1992, às vésperas da leitura do relatório da CPMI, milhares
de pessoas foram às ruas, num movimento que ficou conhecido como
“cara-pintadas” e que foi liderado pelo presidente da UNE Lindemberg
Farias. No dia seguinte o relatório da
CPMI foi aprovado por 16 votos a 5, concluindo que Collor havia desonrado o
exercício da Presidência ao manter relações com o esquema PC Farias (Memorial,
2017).
No dia 1º de
setembro o presidente da Associação Brasileira de Imprensa ABI), Barbosa Lima
Sobrinho, e o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcelo
Lavenère, entregaram o pedido de impeachment no Salão Verde da Câmara dos
Deputados (Memorial, 2017).
No
dia 29 de setembro de 1992 é aberto o processo de impeachment na Câmara dos
Deputados e Collor é afastado do governo. Um dia antes, assediado pela
imprensa, ele saiu para sua corrida rotineira usando do discurso ideológico na
camiseta, como costumava fazer durante seu governo e que deixava os analistas
políticos às voltas com as interpretações discursivas: “O Tempo é o senhor da
razão”. Esta mensagem gerou muitas especulações e interpretações diversas e
muitos foram os repórteres e comentaristas políticos que deram ao presidente a
autoria da frase. Mais tarde descobriu-se que era uma citação latina muito
usada por Ulisses Guimarães quando o país estava sob a égide da ditadura e o
deputado paulista afirmava ser citação de Proust (Nascimento, 2019).
Ilustração
1: Camiseta com frase.
Collor, online
ANÁLISE
DO DISCURSO: O TEMPO É O SENHOR DA RAZÃO
Na AD
a linguagem não é aceita como expressão de pensamento ou instrumento de
comunicação. Ela é entendida como um trabalho simbólico em “que tomar a palavra
é um ato social com todas as suas implicações, conflitos, reconhecimentos,
relações de poder, constituição de identidade, etc” (ORLANDI, 1998 apud GUERRA, 2010, p. 3), ou seja, considerando que
o sujeito discursivo implica a relação do simbólico com o político o sentido do texto na AD constrói-se
na articulação da história e da sociedade que o produziu, tornando o discurso
um objeto linguístico e histórico o qual deve ser analisado simultaneamente (GREGOLIN,
1995, apud GUERRA, 2010).
O sujeito não é a fonte absoluta do significado, do sentido. Segundo
Pêcheux , o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia. O sujeito é
constituído por falas de outros sujeitos que resulta na interação de várias
vozes na relação sócio ideológico. Ainda Pêcheux (1988,
apud Guerra 2010, p. 8), o
sujeito é afetado por dois tipos de esquecimento: o número 1 é de natureza
inconsciente e ideológica e acontece quando o sujeito rejeita (ou tenta apagar)
de modo inconsciente tudo aquilo que não se insere na sua formação discursiva e
ele se coloca como a origem de tudo que diz. O esquecimento número 2 é de
caráter pré-consciente e o sujeito tem a ilusão de que o que ele diz tem apenas
um significado e acredita que todos os interlocutores entenderão suas mensagens
da mesma forma.
Pela
memória discursiva contida no interdiscurso estampado na camisa do então
presidente da República e nos enunciados de Ulisses Guimarães, podemos afirmar
que a ideologia presente em cada enunciado é totalmente diferente um do outro.
Pêcheux afirma que a AD “representa a possibilidade de ler no discurso textual
os traços da memória histórica tomada no jogo da língua” (MALDIDIER, 2003 apud
PATTI, p. 29, 2009) e essa
memória histórica flui cristalina deixando marcas da diferença entre o mesmo
enunciado. Em Ulisses Guimarães a memória histórica nos direciona para um país
que vivia no embate ideológico contra um sistema de governo ditatorial e
extremamente repressivo, cuja tortura e morte dos que eram considerados
inimigos do governo eram coisas rotineiras. O interdiscurso estampado na
camiseta de Collor conduz a memória histórica pelas veredas da corrupção
entranhada nos corredores do Palácio do Planalto, via Casa da Dinda, e de um
tesoureiro de campanha chamado PC Farias.
Na AD,
segundo Orlandi (1998), o eixo que estrutura o funcionamento da linguagem é o
contraditório entre a paráfrase e a polissemia. A paráfrase é a
reiteração do discurso e a polissemia a produção da diferença. A primeira, a
paráfrase, corresponde ao enunciado contendo as mesmas ou diferentes palavras
com o mesmo sentido em iguais ou diferentes situações proferidas por diferentes
locutores; já a polissemia é uma ruptura dos processos de significação, um
deslocamento dos sentidos. A paráfrase e a polissemia é um jogo entre o mesmo e
o diferente.
Apesar
de haver variação de locutores (Collor e Ulisses Guimarães) e de situação,
nota-se que houve o retorno ao mesmo espaço dizível, ou seja, há a ocorrência
da paráfrase. No entanto, nas mesmas condições da produção imediata do
discurso, há o deslocamento de sentido, ou seja, ocorre a polissemia, cuja
interpretação se realiza entre a memória institucional (arquivo) e os efeitos
da memória (interdiscurso) que é a responsável por identificar essa
transferência de sentido. Ulisses Guimarães citava o provérbio latino no
sentido de manter a esperança viva na nação brasileira. O Tempo, um dia,
mostraria as mazelas e atrocidades estatais que o governo negava. Na paráfrase
de Collor de Mello ocorreu o deslocamento de sentido afetado, principalmente, pelo
esquecimento número dois de Pêcheux (1988,
apud Guerra 2010, p. 8):
Collor estava convencido de que o que
ele dizia tinha apenas um significado e que todos os interlocutores entenderiam
sua mensagem da mesma forma e acreditariam na sua inocência, mas ocorreu
justamente o contrário: as acusações de corrupção no seu governo eram
fundamentadas em provas documentais e resultaram no seu afastamento da
Presidência da República culminando no seu impeachment. A ironia desse triste
evento estava justamente no fato de ele ter sido eleito usando o discurso de
combate à corrupção (Bezerra, 2018).
REFERÊNCIAS
COLLOR, online. 1992.
Disponível em:
https://twitter.com/collor/status/772423048876228608
Acessado em 15/11/2019.
FERNANDES, Rômulo Giácome de Oliveira e outros. A noção de sujeito na análise do discurso:
notas introdutórias a partir de helena nagamine brandão. Teoliterias. 2012.
Disponível em:
http://teoliterias.blogspot.com/2012/11/a-nocao-de-sujeito-na-analise-do.html
Acessado em 15/11/2019.
GUERRA. Vânia Maria Lescano. A análise do discurso de linha francesa e a pesquisa
nas ciências humanas. Campo Grande: Anais do sciencult.
2010.
Disponível em:
https://anaisonline.uems.br/index.php/sciencult/article/view/3274
Acessado em 15/11/2019.
NASCIMENTO,
Celso. Senhor da razão. Gazeta do
Povo, 2019.
Disponível
em:
https://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/colunistas/celso-nascimento/senhor-da-razao-8fcednltlvcj0qy1hxx8p9jda/
Acessado
em 18/11/2019.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Paráfrase
e polissemia: a fluidez nos limites do simbólico. Campinas: Rua, v. 4,
p. 9 a 19, 1998.
Disponível em:
https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rua/article/download/8640626/8177/
PATTI, Ane
Ribeiro; ROMÃO, Lucília Maria Sousa. Sentidos e sujeitos discursivos: filhos e netos do narcotráfico no movimento
do discurso. Ribeirão Preto: USP. 2009.
Disponível em:
https://www.ffclrp.usp.br/imagens_defesas/20_05_2010__10_52_38__43.pdf
Acessado em 15/11/2019.
MEMORIAL da democracia [museu multimídia
dedicado à luta pela democracia no Brasil]. Desvendando os poderes de PC Farias. 2017.
Disponível
em:
http://memorialdademocracia.com.br/card/cpi-desvenda-os-poderes-de-pc-farias
Acessado em 15/11/2019.
COLLOR
GLOBO. Impeachment
de Collor. Memorial Globo. 2013.
Disponível em:
http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/coberturas/impeachment-de-collor/fotos-e-videos.htm
Acessado em 15/11/2019.
BEZERRA, Juliana. Impeachment de Collor. 2018.
Disponível em:
https://www.todamateria.com.br/impeachment-de-collor/
Acessado em 15/11/2019.

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