sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O TEMPO É O SENHOR DA RAZÃO

 
Análise do discurso na frase estampada na camiseta do então presidente da República Fernando Collor de Mello às vésperas de ser afastado do cargo para responder o processo de Impeachment aberto pelo Senado Federal.
 
Ronaldo Torres
Roseane Elias
Pedro Costa
Karla Juliana
Edson Santos                                                                                                  
         Analisaremos o provérbio latino “O Tempo é o senhor da razão” impresso na camisa de Fernando Collor de Mello às vésperas do seu afastamento da Presidência da República não pelo seu sentido Semântico-pragmático, ou seja, pela relação de um contexto, pelo conhecimento de mundo ou outro conhecimento que o leitor tenha em sua memória. Nossa análise far-se-á mediante no que se insere numa formação discursiva em função da memória histórica, do interdiscurso, da ideologia, da ressignificação do enunciado, considerando que o sujeito discursivo está relacionado com o simbólico e com o político.
 
MEMÓRIA HISTÓRICA
 
Fernando Collor de Mello foi eleito o primeiro presidente do Brasil em eleições diretas no ano de 1989 após vinte e um longos anos de ditadura. Até então era tido como um simples playboy que governava Alagoas cuja a mídia o vendeu, um ano antes das eleições, como um super-herói caçador de marajás por causas de algumas demissões de servidores públicos que ele promoveu durante seu governo de Alagoas.
Eleito, no seu primeiro dia de governo confiscou a poupança e todo o dinheiro que havia nas contas correntes, justificando só ter “uma bala para matar o tigre da inflação”. Esse confisco causou grande prejuízo nas finanças dos correntistas e também na economia do país.
Collor tomou posse no dia 15 de março de 1990 e em junho começaram as denúncias de corrupção no seu governo, tendo como principal operador seu tesoureiro de campanha Paulo César Farias, conhecido como PC Farias. Em 24 de maio de 1992 as denúncias atingiram diretamente o presidente da República: numa entrevista dada à revista Veja, Pedro Collor de Mello, acusava PC Farias de ser apenas o testa de ferro do seu irmão Fernando Collor. No dia seguinte a denúncia passou a ser investigada pela Polícia Federal. Oito dias depois da publicação da entrevista de Pedro Collor, foi instalada uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar PC Farias e as suas relações não republicanas com o presidente da República (Globo, 2017).
A CPMI confirmou a existência do esquema de corrupção montado por PC Farias em todos os níveis de governo e descobriu também que as despesas pessoais do presidente da República e de sua mulher, Rosane, eram pagas pelo empresário com cheques de contas em nome de fantasmas.  Era um esquema bilionário de arrecadação de recursos entre empresários sob a forma de propina e recursos públicos desviados. Esse esquema veio a público no depoimento de Eriberto França, motorista da secretária particular de Collor, Ana Acioli. Ele revelou à CPMI que os pagamentos das contas de Collor e sua esposa eram feitos com cheques de contas fantasmas, inclusive as despesas da Casa da Dinda, mansão particular onde o presidente residia, como também a compra de um Fiat Elba, que serviu de estopim para o processo de impeachment do presidente da República. Descobriu-se também que Ana Acioli e PC Farias fizeram saques de suas contas às vésperas do confisco imposto pelo chamado Plano Collor, em 16 de março de 1990 (Globo, 2017).
No dia 25 de agosto de 1992, às vésperas da leitura do relatório da CPMI, milhares de pessoas foram às ruas, num movimento que ficou conhecido como “cara-pintadas” e que foi liderado pelo presidente da UNE Lindemberg Farias.  No dia seguinte o relatório da CPMI foi aprovado por 16 votos a 5, concluindo que Collor havia desonrado o exercício da Presidência ao manter relações com o esquema PC Farias (Memorial, 2017).
No dia 1º de setembro o presidente da Associação Brasileira de Imprensa ABI), Barbosa Lima Sobrinho, e o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Marcelo Lavenère, entregaram o pedido de impeachment no Salão Verde da Câmara dos Deputados (Memorial, 2017).
No dia 29 de setembro de 1992 é aberto o processo de impeachment na Câmara dos Deputados e Collor é afastado do governo. Um dia antes, assediado pela imprensa, ele saiu para sua corrida rotineira usando do discurso ideológico na camiseta, como costumava fazer durante seu governo e que deixava os analistas políticos às voltas com as interpretações discursivas: “O Tempo é o senhor da razão”. Esta mensagem gerou muitas especulações e interpretações diversas e muitos foram os repórteres e comentaristas políticos que deram ao presidente a autoria da frase. Mais tarde descobriu-se que era uma citação latina muito usada por Ulisses Guimarães quando o país estava sob a égide da ditadura e o deputado paulista afirmava ser citação de Proust (Nascimento, 2019).
Ilustração 1: Camiseta com frase.  

Collor, online
 
 
ANÁLISE DO DISCURSO: O TEMPO É O SENHOR DA RAZÃO
 
Na AD a linguagem não é aceita como expressão de pensamento ou instrumento de comunicação. Ela é entendida como um trabalho simbólico em “que tomar a palavra é um ato social com todas as suas implicações, conflitos, reconhecimentos, relações de poder, constituição de identidade, etc(ORLANDI, 1998 apud     GUERRA, 2010, p. 3), ou seja, considerando que o sujeito discursivo implica a relação do simbólico com o político o sentido do texto na AD constrói-se na articulação da história e da sociedade que o produziu, tornando o discurso um objeto linguístico e histórico o qual deve ser analisado simultaneamente (GREGOLIN, 1995,  apud      GUERRA, 2010).
 
O sujeito não é a fonte absoluta do significado, do sentido. Segundo Pêcheux , o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia. O sujeito é constituído por falas de outros sujeitos que resulta na interação de várias vozes na relação sócio ideológico. Ainda Pêcheux (1988, apud  Guerra 2010, p. 8), o sujeito é afetado por dois tipos de esquecimento: o número 1 é de natureza inconsciente e ideológica e acontece quando o sujeito rejeita (ou tenta apagar) de modo inconsciente tudo aquilo que não se insere na sua formação discursiva e ele se coloca como a origem de tudo que diz. O esquecimento número 2 é de caráter pré-consciente e o sujeito tem a ilusão de que o que ele diz tem apenas um significado e acredita que todos os interlocutores entenderão suas mensagens da mesma forma.
 
Pela memória discursiva contida no interdiscurso estampado na camisa do então presidente da República e nos enunciados de Ulisses Guimarães, podemos afirmar que a ideologia presente em cada enunciado é totalmente diferente um do outro. Pêcheux afirma que a AD “representa a possibilidade de ler no discurso textual os traços da memória histórica tomada no jogo da língua” (MALDIDIER, 2003 apud      PATTI, p. 29, 2009) e essa memória histórica flui cristalina deixando marcas da diferença entre o mesmo enunciado. Em Ulisses Guimarães a memória histórica nos direciona para um país que vivia no embate ideológico contra um sistema de governo ditatorial e extremamente repressivo, cuja tortura e morte dos que eram considerados inimigos do governo eram coisas rotineiras. O interdiscurso estampado na camiseta de Collor conduz a memória histórica pelas veredas da corrupção entranhada nos corredores do Palácio do Planalto, via Casa da Dinda, e de um tesoureiro de campanha chamado PC Farias.
  Na AD, segundo Orlandi (1998), o eixo que estrutura o funcionamento da linguagem é o contraditório entre a paráfrase e a polissemia.  A paráfrase é a reiteração do discurso e a polissemia a produção da diferença. A primeira, a paráfrase, corresponde ao enunciado contendo as mesmas ou diferentes palavras com o mesmo sentido em iguais ou diferentes situações proferidas por diferentes locutores; já a polissemia é uma ruptura dos processos de significação, um deslocamento dos sentidos. A paráfrase e a polissemia é um jogo entre o mesmo e o diferente.
Apesar de haver variação de locutores (Collor e Ulisses Guimarães) e de situação, nota-se que houve o retorno ao mesmo espaço dizível, ou seja, há a ocorrência da paráfrase. No entanto, nas mesmas condições da produção imediata do discurso, há o deslocamento de sentido, ou seja, ocorre a polissemia, cuja interpretação se realiza entre a memória institucional (arquivo) e os efeitos da memória (interdiscurso) que é a responsável por identificar essa transferência de sentido. Ulisses Guimarães citava o provérbio latino no sentido de manter a esperança viva na nação brasileira. O Tempo, um dia, mostraria as mazelas e atrocidades estatais que o governo negava. Na paráfrase de Collor de Mello ocorreu o deslocamento de sentido afetado, principalmente, pelo esquecimento número dois de Pêcheux (1988, apud  Guerra 2010, p. 8): Collor estava convencido de que  o que ele dizia tinha apenas um significado e que todos os interlocutores entenderiam sua mensagem da mesma forma e acreditariam na sua inocência, mas ocorreu justamente o contrário: as acusações de corrupção no seu governo eram fundamentadas em provas documentais e resultaram no seu afastamento da Presidência da República culminando no seu impeachment. A ironia desse triste evento estava justamente no fato de ele ter sido eleito usando o discurso de combate à corrupção (Bezerra, 2018).
 
REFERÊNCIAS
 COLLOR, online. 1992.
Disponível em:
https://twitter.com/collor/status/772423048876228608
Acessado em 15/11/2019.
FERNANDES, Rômulo Giácome de Oliveira e outros. A noção de sujeito na análise do discurso: notas introdutórias a partir de helena nagamine brandão. Teoliterias. 2012.
Disponível em:
http://teoliterias.blogspot.com/2012/11/a-nocao-de-sujeito-na-analise-do.html
Acessado em 15/11/2019.
GUERRA. Vânia Maria Lescano. A análise do discurso de linha francesa e a pesquisa nas ciências humanas. Campo Grande: Anais do sciencult. 2010.
Disponível em:
https://anaisonline.uems.br/index.php/sciencult/article/view/3274
Acessado em 15/11/2019.
NASCIMENTO, Celso. Senhor da razão. Gazeta do Povo, 2019.
Disponível em:
 
https://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/colunistas/celso-nascimento/senhor-da-razao-8fcednltlvcj0qy1hxx8p9jda/
 
Acessado em 18/11/2019.
 
ORLANDI,  Eni Puccinelli. Paráfrase e polissemia: a fluidez nos limites do simbólico. Campinas: Rua, v. 4, p. 9 a 19, 1998.
Disponível em:
https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rua/article/download/8640626/8177/
PATTI, Ane Ribeiro; ROMÃO, Lucília Maria Sousa. Sentidos e sujeitos discursivos: filhos e netos do narcotráfico no movimento do discurso. Ribeirão Preto: USP. 2009.
Disponível em:
https://www.ffclrp.usp.br/imagens_defesas/20_05_2010__10_52_38__43.pdf
Acessado em 15/11/2019.
MEMORIAL da democracia [museu multimídia dedicado à luta pela democracia no Brasil]. Desvendando os poderes de PC Farias. 2017.
Disponível em:
http://memorialdademocracia.com.br/card/cpi-desvenda-os-poderes-de-pc-farias
Acessado em 15/11/2019.
COLLOR
GLOBO. Impeachment de Collor. Memorial Globo. 2013.
Disponível em:
http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/coberturas/impeachment-de-collor/fotos-e-videos.htm
Acessado em 15/11/2019.
BEZERRA, Juliana. Impeachment de Collor. 2018.
Disponível em:
https://www.todamateria.com.br/impeachment-de-collor/
Acessado em 15/11/2019.
 


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