Por: Ronaldo Torres
Resenha
Escritores
da Liberdade (EUA/Alemanha, 2007), do diretor Richard LaGravenese, estrelado por Hillary Swank,
atriz premiada com dois Oscar, o primeiro em 2000, (Meninos Não Choram, de 1999) e o outro em 2005 (Menina de Ouro, de 2004) é um filme baseado em fatos reais e aborda de
maneira comovente a problemática enfrentada nas salas de aula, principalmente
quando a comunidade docente ignora o que vai além dos muros das escolas. O
filme conta a história de uma professora recém-formada que, motivada pelos seus
ideais, aceita ensinar uma turma problemática na escola Woodrow Wilson, em Long
Beach, California.
A
realidade encontrada por ela estava além do imaginado. Os alunos da sala 203 faziam
parte de um programa de integração voluntária. Oriundos de nacionalidades
diferentes, a maioria fazia parte de gangues e vivia sob forte tensão. Alguns
estavam lá cumprindo pena alternativa. Para eles, manter-se vivo era o grande desafio
diário. Além disso, foram entregues à própria sorte pela instituição que
deveria educá-los e transformá-los em cidadãos. Mas, em vez de arrefecer os
ânimos por não encontrar a escola dos seus sonhos, a professora arregaçou as
mangas e foi à luta na tentativa de modificar o quadro desfavorável daqueles
deserdados da sorte.
Para a
pedagoga paulista Maria Lúcia Vasconcelos, em seu livro Educação Básica: a formação do professor, relação professor-aluno,
planejamento, mídia e educação (2012: 42), “A interação está na base das
relações humanas, assim como no alicerce da formação da identidade de cada
indivíduo [...]”, e foi o que fez a professora Erin Gruwell, a personagem
vivida pela atriz Hillary Swank: em vez de ir ao confronto com os alunos que a
hostilizavam, impondo sua autoridade legitimada no regulamento escolar,
preferiu interagir com eles, assumindo o seu papel social de educadora
mediadora de conflitos ao perceber que o problema estava muito além dos alunos,
estava no mundo extramuros da escola, onde cada um desses adolescentes era
considerado sobrevivente do seu cotidiano marginal, corrupto e violento. Assim,
sem arrebatamentos que suscitasse enfrentamentos, fez com que os alunos
assumissem sua condição de “sujeito autônomo de seu processo de crescimento e
aprendizagem” (Vasconcelos, 2012: 45), e se tornassem seres críticos do seu
próprio meio social.
Segundo
ainda Vasconcelos (2012: 45), “O adequado exercício da autoridade, sendo ele
fruto de um processo relacional, exige envolvimento e aceitação por parte do
outro, ou seja, por parte do grupo sobre a qual ela é exercida”. Nesse contexto, a professora Erin Gruwell trabalhou
para entender o drama de cada um ao propor trabalhos com temas na própria
linguagem deles, convencendo-os a confessar em diários suas angústias e
aflições. Conhecedora do drama de cada um, a senhora G, como depois passou a
ser respeitosamente chamada, tornou-se solidária a eles e trabalhou para
despertar a motivação, que até então era uma palavra desconhecida naquela sala
de aula. Levou-os a uma visita ao Museu do Holocausto, onde entraram em contato
com uma realidade histórica bem pior do que o drama que eles viviam e então
começaram a descobrir um sentimento que até aquele momento era desconhecido
deles: a comiseração.
A
professora abriu-lhes um sonho impossível dando-lhes novas perspectivas de
mundo, levando-os a se sentirem gente com gente dentro, aflorando o sentimento
de dignidade e de possibilidades de transformação. Assim, os alunos a
transformaram em protetora e então ela passou a exercer sua autoridade baseada
no seu poder de liderança.
Também
envolvida em um drama pessoal causado pelo casamento em conflito com sua
profissão que mais tarde resultou em divórcio do marido, não deixou que sua
vida pessoal permeasse seus sonhos. Em nenhum momento se deixou abater pelo que
estava acontecendo fora do ambiente escolar.
A ação
pedagógica inovadora da Sra. G, que conseguiu despertar a motivação dos alunos
que no início do ano letivo ninguém dava nada por eles, desmontou a estrutura
conservadora da escola Woodrow Wilson, pondo abaixo o autoritarismo da direção
escolar, modificando até regulamentos ultrapassados.
Sob
esse olhar, o filme Escritores da
Liberdade relata de forma emocionante um problema comum enfrentado pelos
professores do mundo todo quando a escola ignora o lado social do aluno e o trata
como um mero coadjuvante. Professor e aluno são protagonistas do mesmo enredo:
formação da cidadania.

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