sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Escritores da Liberdade, um exemplo da autoridade docente

 

Por: Ronaldo Torres



Resenha

 

Escritores da Liberdade (EUA/Alemanha, 2007), do diretor Richard  LaGravenese, estrelado por Hillary Swank, atriz premiada com dois Oscar, o primeiro em 2000, (Meninos Não Choram, de 1999) e o outro em 2005 (Menina de Ouro, de 2004)  é um filme baseado em fatos reais e aborda de maneira comovente a problemática enfrentada nas salas de aula, principalmente quando a comunidade docente ignora o que vai além dos muros das escolas. O filme conta a história de uma professora recém-formada que, motivada pelos seus ideais, aceita ensinar uma turma problemática na escola Woodrow Wilson, em Long Beach, California.

 

A realidade encontrada por ela estava além do imaginado. Os alunos da sala 203 faziam parte de um programa de integração voluntária. Oriundos de nacionalidades diferentes, a maioria fazia parte de gangues e vivia sob forte tensão. Alguns estavam lá cumprindo pena alternativa. Para eles, manter-se vivo era o grande desafio diário. Além disso, foram entregues à própria sorte pela instituição que deveria educá-los e transformá-los em cidadãos. Mas, em vez de arrefecer os ânimos por não encontrar a escola dos seus sonhos, a professora arregaçou as mangas e foi à luta na tentativa de modificar o quadro desfavorável daqueles deserdados da sorte.

 

Para a pedagoga paulista Maria Lúcia Vasconcelos, em seu livro Educação Básica: a formação do professor, relação professor-aluno, planejamento, mídia e educação (2012: 42), “A interação está na base das relações humanas, assim como no alicerce da formação da identidade de cada indivíduo [...]”, e foi o que fez a professora Erin Gruwell, a personagem vivida pela atriz Hillary Swank: em vez de ir ao confronto com os alunos que a hostilizavam, impondo sua autoridade legitimada no regulamento escolar, preferiu interagir com eles, assumindo o seu papel social de educadora mediadora de conflitos ao perceber que o problema estava muito além dos alunos, estava no mundo extramuros da escola, onde cada um desses adolescentes era considerado sobrevivente do seu cotidiano marginal, corrupto e violento. Assim, sem arrebatamentos que suscitasse enfrentamentos, fez com que os alunos assumissem sua condição de “sujeito autônomo de seu processo de crescimento e aprendizagem” (Vasconcelos, 2012: 45), e se tornassem seres críticos do seu próprio meio social.

 

Segundo ainda Vasconcelos (2012: 45), “O adequado exercício da autoridade, sendo ele fruto de um processo relacional, exige envolvimento e aceitação por parte do outro, ou seja, por parte do grupo sobre a qual ela é exercida”.  Nesse contexto, a professora Erin Gruwell trabalhou para entender o drama de cada um ao propor trabalhos com temas na própria linguagem deles, convencendo-os a confessar em diários suas angústias e aflições. Conhecedora do drama de cada um, a senhora G, como depois passou a ser respeitosamente chamada, tornou-se solidária a eles e trabalhou para despertar a motivação, que até então era uma palavra desconhecida naquela sala de aula. Levou-os a uma visita ao Museu do Holocausto, onde entraram em contato com uma realidade histórica bem pior do que o drama que eles viviam e então começaram a descobrir um sentimento que até aquele momento era desconhecido deles: a comiseração.

 

A professora abriu-lhes um sonho impossível dando-lhes novas perspectivas de mundo, levando-os a se sentirem gente com gente dentro, aflorando o sentimento de dignidade e de possibilidades de transformação. Assim, os alunos a transformaram em protetora e então ela passou a exercer sua autoridade baseada no seu poder de liderança.

 

Também envolvida em um drama pessoal causado pelo casamento em conflito com sua profissão que mais tarde resultou em divórcio do marido, não deixou que sua vida pessoal permeasse seus sonhos. Em nenhum momento se deixou abater pelo que estava acontecendo fora do ambiente escolar.

 

A ação pedagógica inovadora da Sra. G, que conseguiu despertar a motivação dos alunos que no início do ano letivo ninguém dava nada por eles, desmontou a estrutura conservadora da escola Woodrow Wilson, pondo abaixo o autoritarismo da direção escolar, modificando até regulamentos ultrapassados.

 

Sob esse olhar, o filme Escritores da Liberdade relata de forma emocionante um problema comum enfrentado pelos professores do mundo todo quando a escola ignora o lado social do aluno e o trata como um mero coadjuvante. Professor e aluno são protagonistas do mesmo enredo: formação da cidadania.


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