Disse me disse...
A chuva fina conta do silêncio.
O silêncio... das horas fala
As horas dizem do vai e vem da vida
A vida...
Volta e meia se cala.
Disse me disse, eis a questão
Eis que hoje vos brindo com uma humilde análise de um poema de Marise Castro, chamado "disse me disse", que me deu gatilho para o que disse, para o que me disse, ou apenas o disse me disse de vozes que sussurram no silêncio das cigarras.
O poema mantém uma estrutura que sugere um diálogo interno, quase um eco de vozes invisíveis, o silêncio, que aparece como algo que “conta” e “fala”, ou seja, esse silêncio não é ausência, mas presença significativa, uma linguagem personificada no Tempo que revela a chuva, o silêncio, as horas e a vida como camadas que nos conduzem à essência.
É preciso ouvir o silêncio para compreender o barulho, digo sempre aos meus alunos do teatro. As palavras só dizem alguma coisa quando se aprende a ouvir o silêncio, as pausas. É neles que moram as intenções. Um texto sem silêncio é apenas um ruído.
"As horas dizem do vai e vem da vida". E como dizem. A Vida vive pendurada no pêndulo do Tempo. O relógio que não retrocede, o silêncio que grita, e a palavra não dita levada para o túmulo. Réquiem para o poeta que só escuta a própria voz: "Eu só me basto". Onde estão o erro, a rasura, o hesitar da voz que definem as nossas emoções? É assim que funciona. Nós somos nós de eus.
Marise nos encaminha para revermos nossas relações, escutarmos a sinfonia da chuva, do vento, as vozes que nos negamos a ouvir.
Enfim, o poema é uma oração semanticamente equivalente a Cajuína, a música que Caetano Veloso compôs quando voltou do exílio e foi visitar o pai do seu parceiro Torquato Neto, um ícone do Tropicalismo, em Teresina.
Quando o pai do Torquato foi na cozinha, Caetano ficou olhando um quadro do amigo, então suspirou:
"Existirmos, a que será que se destina?" E de uma reflexão filosófica, nasceu uma bela canção. E um belo poema.